Vasco Pulido Valente
No dia em que nasci, 21 de Novembro de 1941, Hitler ocupava quase toda a Europa e o exército alemão estava a alguns quilómetros de Moscovo. Franco tinha liquidado a República e Salazar mandava em Portugal. Ainda me lembro, distintamente, de ouvir a voz do Führer (ou de Goebbels?) na telefonia e das senhas de racionamento. Quando cresci, a guerra continuava viva na pobreza geral, nos livros, nos jornais, nas conversas da família. Sou, em primeiro lugar, um filho desse tempo. (…)Nunca perdi a memória ou os sinais desse princípio, que foi, por assim dizer, a minha introdução ao mundo. A Guerra-fria veio complicar as coisas. Em Portugal, a existência da ditadura impunha, na prática, a escolha de um único lado. Não se podia ser contra os comunistas pela razão primitiva e óbvia de que o regime perseguia e prendia os comunistas. Não houve ninguém, ou quase ninguém, com um resto de consciência moral, que, numa altura ou noutra, não caísse neste buraco: o buraco sem fundo do "Anti-fascismo". Sair dele era mais difícil e muitos só saíram muito depois do 25 de Abril.
Por mim, gastei esforçadamente uma dúzia de anos no trabalho inglório de varrer a tralha política e teórica da minha cabeça. É uma parte da minha vida que se estragou e que não volta. Sou um filho da Guerra-fria. (…)
Na minha última encarnação sou, prosaicamente, um filho da democracia falhada. Como escreveu o homem, a velhice é um naufrágio. Comigo, um naufrágio que às vezes não acho exclusivamente pessoal. Mas são com certeza momentos de megalomania. A verdade é que já não pertenço a esta história. O meu interesse é forçado, a minha presença é, pelo menos para mim, gratuita.
Mas, por enquanto, não há remédio senão persistir.
(Auto-retrato no Público, 21.04.2007)
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Não conheço melhor prova da adequação da tese de Huntington - e do medo que causou, razão escondida dos seus detractores, quanto a mim - do que esta designação pacóvia, a que o doutor Sampaio empresta o nome.
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A espera
Vivemos até aqui demoradamente.Mas a temporalidade mudou desde os tempos da ditadura: esta fazia dos portugueses seres adiados; hoje, em democracia, numa sociedade normalizada, à superfície das coisas, o presente eterno que foi o nosso já esconde mal as mutações que se vão operando, o adiamento transformou-se em espera, a espera em ansiedade e a ansiedade aspira cada vez mais ao real.
José Gil, Portugal, hoje: o medo de existir – Relógio D’água 2004
Não sei como é, mas... assenta-me como uma luva
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No país dos matulões
Há dias, em Berlim, desprezando o que é desprezável, os seis poderosos reuniram o directório europeu (faz falta o Tratado de Lisboa) para preparar a próxima do que dá pela etiqueta de G20. Sarkozy ajudou à festa, com a sugestão nacional de condicionar ajudas à aplicação no hexágono.Críticas azedas levaram a nova reunião, agora a 27 (último fim-de-semana) para apaziguar melindres. Foi imediatamente precedida por uma outra, só de Leste, preparando a posição privada de 9 dos 27. Temos uma divisão clara entre poente e levante, entre ricos e pobres; e temos um directório dominado pelo tandem França/Alemanha (um bocado tenso, por sinal).
A redução do dinheiro, parece estar a gerar a desagregação do tecido produtivo. A redução da economia gera desemprego; o desemprego reduz os mercados, o que vai reduzir ainda mais a economia. A desagregação da economia leva à desagregação social, numa depressiva dinâmica de buraco negro.
Agrava-se a crise global, em retro-alimentação, com ciclos acelerados; piorando todos os dias, agora a leste em estados da União, agora a ocidente em países defendidos pelo euro, aquilo que fica em jogo é resvalar para o directório, é a lei do mais forte, com proteccionismos, a industria francesa para os franceses, a inglesa para os ingleses, etc.; e com desequilíbrios nas dívidas e taxas de juro entre estados da União, a breve prazo, o próprio euro ficará em causa.
Aquilo que, também está em causa, é a solidariedade dentro da União, isto é, a própria Europa. Para um país pequeno e endividado, não vemos alternativa a aceitar os tratados e nada para além dos tratados. O Tratado de Lisboa em vigor, apesar dos defeitos, seria hoje uma mais valia.
Perspectiva-se assim o teste decisivo da União:
- Proteccionismo ou Solidariedade
- Cada um por si, aceitando que egoísmos nacionais, destruam o mercado interno e arrisquem a moeda única, ou tratar todos os europeus como cidadãos, conjugando esforços, utilizando recursos dos que podem em socorro dos mais frágeis, criando os instrumentos.
Em empréstimos ao Leste parecem estar em jogo mais de mil milhões de euros (algum do BCP, senhor José Sócrates); o efeito do colapso financeiro, económico, social, mete medo aos ricos. Desta vez, ou lucro é de todos, ou adeus Europa.
Mas onde está a Comissão do José Manuel?
Com um orçamento europeu ridículo, onde está a resposta comum?
Onde a hipótese imaginada de títulos de divida pública europeus?
E a hipótese imaginária de um fundo para auxiliar os estados insolventes?
A única entidade independente que funciona na UE, contra vontade dos grandes, diga-se, é o Banco Central Europeu. Apostar em regras comuns aceites - o melhor que existe é o Tratado de Lisboa - na dimensão institucional, e apostar na integração na moeda única nas dimensões económica e financeira, parece tornar-se imperioso.
Será também, provável, porque a alternativa é cara, mesmo para os poderosos. Por isso, nesta desgraça, estamos optimistas. A necessidade aguça os miolos... e a esperança. Em ultima analise, a questão é politica. Por isso José Sócrates devia estar em Bruxelas, no domingo passado, e nos próximos.
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Na terra dos pequeninos
Bons carneiros, depois da desgraçada sucessão do Cherne - que se foi por conveniencia pessoal - votámos Sócrates. Não no PS. Em Sócrates.Ao fim de um par de anos reconhecemos um líder com brilho nos olhos. Que recalibrou a despesa pública, segurou a segurança social, meteu a burocracia na era digital, pegou com energia nas renováveis, e com coragem, quis romper domínios fundamentais como a justiça, a saúde ou a educação.
O importante ficou nas contas, que no resto nem metade conseguiu. Mas tentou. Na III Republica, foi o único que verdadeiramente tentou dissipar o manto de nevoeiro branco que recobre este país. Cavaco, excepção feita à reforma de Cadilhe, terá sido outra história, mais de construções, do que de instituições.
Caiem-nos então em cima, as primeiras vagas da maior tempestade. A paisagem começa a assemelhar-se ao mar de lama e detritos, após um tsunami. Tudo fica em risco. Ninguém é prescindível.
Será por aqui que, esboroada a governação, José Sócrates perde o pé.
Não nas licenciaturas e-mail, não nos projectos da Cova da Beira, nem mesmo nas sombras do Fripórte; só pela potência do vento. É exemplo típico, a tristeza da Quimonda com pés de barro - maior exportador mas, um só fornecedor, um só cliente - paradigma do Portugal da ponta da catana.
A Manuela, pese embora alguma responsabilidade – até anterior ao grande Cherne – no estado a que isto chegou, vai saindo, a pouco e pouco, do mundo exíguo onde se recolhia. Será aqui, mesmo sem jeitinho nenhum, que começamos a reparar no que ela diz. Reparamos na dívida externa, praticamente igual a um ano de produção nacional. E em vivo progresso. Reparamos na manipulação mediática muito profissional – exemplificada com as recentes cortes laudatórias – lembrando-nos que o rei vai nu. Que por volumoso que seja o palavreado, tudo se sumirá com o vento. Bendita seja então a imprensa negra… e existir oposição.
Um primeiro-ministro, que não é dos socialistas, mas de todos. Parece oportuno lembrar José Sócrates, que o excesso de confiança reduz a visão, que boa parte da sua votação vem da asa direita, e não apenas do segundo Calhau à esquerda. Vem de gente conservadora, que gosta de líderes a defender o que considera a sua nação, os seus interesses, enfim, de ter um procurador à altura; este pormenor, não nos parece menor. Na actual barafunda da União, em Bruxelas, joga-se entre fracasso e salvação. Portugal será pouco relevante, sim, mas também em ultima analise, a questão não é económica, é política. De vontade política e urgente. E mútua, claro.
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Nihil: aceitemos… é a vida.
Lembremo-nos que esta expressão vem de longe, e de uma outra zona discursiva: costumava terminar os comentários e análises de António Guterres, o primeiro-ministro socialista. Com uma leve carga de resignação, ela pretendia exprimir uma velha sabedoria cristã: aceitemos os males do mundo, os dissabores, tudo o que vai contra a nossa vontade, porque isso resulta de uma lógica e de um poder que nos ultrapassam.
E já que a lógica do tempo histórico é imbatível, aproveitemos então para, na nossa pequena esfera, tirarmos pequenos benefícios individuais.
O sentimento de responsabilidade por uma comunidade, por um país, parece ter desaparecido.
Em política esse tipo de transferência de regras morais de conduta para a esfera governativa pode ser extremamente perigoso. A resignação leva à impotência, a passividade à inércia e ao imobilismo: o governo de Guterres caiu porque não governou, ponto final. O de Durão Barroso não terminou, por razões de conveniência pessoal do primeiro-ministro.
(José Gil, Portugal, hoje: o medo de existir – Relógio D’água 2004)
Quem mais, como eu, se vê espelhado nesta couraça, que simultaneamente protege e castra?
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Pone seram, cohibe, sed quis custodiet ipsos custodes?
O poder é por natureza reaccionário à mudança. Quando mudamos os actores, os novos tendem a assumir os mesmo papéis na mesma cena. Foi uma grande invenção, a repartição dos poderes. Mas o tempo e o modo tudo subvertem.
Por essa razão é essencial a instituição da “liberdade de expressão”; por essa razão é essencial haver contrapoder livre e alternativo; por essa razão, finalmente, é fundamental o papel dos jornalistas no teatro do poder. Apesar do lixo abundante que produzem, os mass media são indutores de transparencia. Apesar de serem também factores de manipulação politica, sem eles esta torna-se infinitamente mais simples.
Com mais ou menos democracia, com ou sem votos, é um risco politico entregar o poder, sem o limitar, ao carismático, por mais atraente que seja.
É esse o perigo das maiorias absolutas, que tanto defendemos aqui no rectangulo (eu incluso); mas os Chaves da Sul América, como os Jardins da ilhas - e até, de forma menor, os Cavacos e os Sócrates (que ainda apoio) à beira mar plantados - são riscos de autocracia.
Em contraponto, na Norte América, qualquer Bush sabe duas coisas:
a) está a prazo
b) tem um contrapeso real (o Congresso, por norma, divergente)
Por aqui, com procuradores a proteger chefes e a censurar carnavais, se não forem os jornais… quem nos guardará dos guardiões?Etiquetas: jornais, juvenal, politica
Reflexos de Gaza: o ódio
Sei que os amigos israelitas se vão ofender. Sei que vocês vivem na Palestina enquanto eu vivo na Disneyland. Contudo, lamento, serei sincero.Tenho uma pancada. Penso muitas vezes, como seria se tivesse nascido na Alemanha (ou na Rússia…) no final da década de trinta. Quero acreditar que não usaria a inscrição para resolver a vida, mas sei muito bem como é feita a carne… milhões de alemães (e russos) acabaram como comissários do poder totalitário. No inicio eram pessoas normais, apenas queriam viver uma vida boa e útil, ser-se humano entre humanos; pessoas que não esperavam matar.Antes de se escandalizarem atentem nas palavras do SS Maximilien Aue (sei que é mau gosto, mas leiam): eliminar ameaças, impedi-los antes que ajam (cá está, prevenção); nem falta, a invocação da não aplicabilidade dos direitos a quem não se conforma (bolcheviques, terroristas, etc) como justificação das acções. Claro que o IDF não tem uma doutrina nazi, nem a democracia israelita é o Reich... claro. Mas a morte e a destruição sempre fizeram o seu trabalho na transformação das almas: o ódio. Como diz Aue, a certa altura pelas “razões certas”, deu consigo em pleno talho. Depois, é a fuga em frente, a loucura, aliás bem alimentada pelo outro lado.
...no final da manhã, o Kommando em peso compareceu no pátio da escola para escutar o HSSPF. Jeckeln não se ficou por meias palavras. A nossa tarefa explicou-nos, era identificar e eliminar qualquer elemento atrás das nossas linhas susceptível de ameaçar as nossas tropas. Qualquer bolchevique, qualquer comissário do povo, qualquer judeu e qualquer cigano podiam a qualquer momento dinamitar os nossos quartéis, assassinar os nossos homens, fazer descarrilar os nossos comboios, ou transmitir informações vitais ao inimigo. O nosso dever não era esperar que tivessem agido punindo-os a seguir, mas impedir que agissem. Estava também fora de questão, dada a rapidez do nosso avanço, criar campos de prisioneiros e enchê-los; todo e qualquer suspeito seria passado pelas armas. Aos juristas que havia entre nós, lembrava que a URSS se recusava a assinar as convenções da Haia, e que por isso o direito internacional que regulava as nossas acções a Ocidente não se aplicava aqui. Haveria decerto erros, decerto vítimas inocentes, mas isso, infelizmente, era a guerra; quando se bombardeia uma cidade, há também civis que morrem. Que em certas ocasiões seria um trabalho penoso para nós, que por vezes faria sofrer a nossa sensibilidade de homens e de alemães, ele bem o sabia; teríamos de triunfar sobre nós próprios…
Rússia, Junho de 1941 (extraído d’ “As benevolentes” de Jonathan Littell)
O Hamas e o fundamentalismo não têm nenhuma legitimidade para invocar os direitos humanos. Usaram jovens para explodirem em autocarros (só parou com o muro, é verdade), usam mesquitas e escolas para depósitos de guerra, seduzem a população para o ódio eterno… desumanizaram isto tudo!
Mas não é por eles senhores, é por vós mesmos, é pela vossa decência que devem agir com decência.
O IDF aceitou o jogo do ódio. No primeiro dia, em dois ou três minutos, atingiram tão duramente o Hamas - uma vintena de mortos, todos milicianos - que só isso já foi muito mais do que em meses o Hamas infligira a Israel.
Porque não pararam por aí?
As imagens que vão emergindo de Gaza, que o secretário-geral da ONU verá, mostram uma verdaeira demolição. Aquilo que o IDF fez, de facto, foi uma brutal punição, um castigo. Não ao Hamas (esses até agradecem, a morte é a vida deles) mas ao povo, aos palestinos que para seu grande azar lá nasceram e lá habitam. Gaza, cada vez mais me lembra o gueto de Varsóvia, um enorme campo de concentração para que os “ratos” se comam uns aos outros.
O que Israel fez é absolutamente desumano, repercute-se por gerações... e qualquer paz assim só pode ser trégua!

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O demónio pelas costas...
O Chaves da Venezuela, esse fenómeno da democracia, disse adeus ao ex-presidente americano nestes termos: deve despedir-se com vergonha, pois foi o presidente com mais baixa popularidade em todo o mundo. Bye bye Bush!Como de costume, não estou no coro de Deo Gracias mundial. Nada tenho contra a nova esperança. Fico contente pelo ver o sonho do Martin realizar-se, finalmente... em parte... mas nunca demonizarei Bush.
Um saloio texano, ok!... Mas se não foi o melhor presidente, garanto eu que não foi o pior, nem lá perto! Um gajo que, simultaneamente, leva com o maior ataque em território americano desde Pearl Harbour, com a maior crise económica desde 1929, para já não falar de um dos mais brutais ataques da natureza dos dois ultimos séculos... precisava de ser um misto de Kennedy, Roosevelt e Lincoln para se safar. E não era, admito.
"I think personally he is a good man who loves his family and loves his country. And I think he made the best decisions that he could at times under some very difficult circumstances" disse o novo presidente. Eu, saloio alfacinha, concordo contigo, mas hoje estamos quase sózinhos, Barack.
Bye bye Bush!
We Bushes cry easily. But not today.
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A bondade do martírio
É preciso que (...) ambos se convençam de que perdem mesmo quando parecem ganhar, diz muito bem o Nuno Pacheco, no editorial Público de hoje.Acho que sim, ninguém ganha neste jogo.
Israel dando mais uma ração, alimenta o ódio anti-ocidental – e não só anti americano, ainda não se percebeu? - que perpassa pelas populações árabes, perde em termos estratégicos no longo prazo (e diziam-me que Huntington é que estava errado...).
Mas o povo palestino perde agora, já! Se Israel paga um preço elevado, a Palestina perde tudo… que lógica suicida é esta, a do Hamas?
Aqueles mapas da palestina minguante, que vi ontem o Daniel exibir na TV, provam que nesta luta, o povo palestino tem sido sacrificado a todos os ódios, internos ou externos, como o do Irão a Israel.
Admitindo que Israel seja filho de Satã, pergunto: com que justificação decente, se permitem sacrificar um povo?
Lembra-me o Götterdämmerung de Hitler, a sacrificar todos os alemães à sua paranóia de ódio. E como os nazis faziam, também agora se acusam os moderados, como Abbas, de serem traidores e colaboracionistas...
É que, caro Nuno Pacheco, como se sabe são precisos dois para o tango, e a linha Irão-Hezbollah-Hamas joga numa estratégia assimétrica, que torna impossivel a cooperação aos oponentes; como diz o Amos Oz: os cálculos são simples e cínicos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor…
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As tréguas de Gaza
Que os povos não devem ser confundidos com os governos, estamos de acordo, mas salvaguardando que muitas vezes, os povos não estão do lado justo (mesmo com razões compreensíveis); exemplo é a situação actual no Médio Oriente: segundo as sondagens em Israel, o Kadima estava em baixo e subiu após o ataque a Gaza. No caso do governo não ripostar aos rockets, estaria a garantir a vitória do Likud e da extrema direita... e a derrota do Kadima nas próximas eleições.Tal como o Hamas, a recuperar o apoio popular e internacional - que estava a perder ao longo das tréguas - logo que as bombas começarem a chover. Ambas as populações, por razões opostas, apoiam hoje a guerra; num caso o ataque, a resistência no outro.
Quanto ao lado dos mais fracos: assim como acho que ter razão não chega para justificar a aplicação da força absoluta – a aplicação deve ser proporcional à capacidade de resistência e limitada pela compaixão devida aos homens; também não me parece que, o facto de se ser mais fraco conferira automaticamente a razão – podemos ser os mais fracos, os mais corajosos, mas simultaneamente injustos (quase sempre quando a raiva tolda o espírito).
Seja como for, não gostava de lá estar e ainda menos a cumprir ordens.
Deus nos guarde da guerra, qualquer que seja a razão, mesmo defensiva, porque ficamos sempre paredes-meias com o crime, porque nos tolda o espírito e nos transforma para pior.
Dizia hoje o Pulido Valente, no pasquim e a outro propósito, que as palavras não mudam nada nem ninguém. Só a experiencia muda e esta vai ser ardente e politicamente nada inócua... Sadat lá sabia, ó Israel.
Oiço agora na TV que iniciaram a ofensiva terrestre... tanques contra casas... nada a dizer, para além da tristeza sem nome. Rendo-me.
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Gaza
After long thinking, I was convinced that the obligation of responsibility before God and before the people make it incumbent upon me that I should go to the far corners of the world, even to Jerusalem to address members of the Knesset and acquaint them with all the facts surging in meAny life that is lost in war is a human life be it that of an Arab or an Israeli. A wife who becomes a widow is a human being entitled to a happy family life, whether she be an Arab or an Israeli.Innocent children who are deprived of the care and compassion of their parents are ours. They are ours, be they living on Arab or Israeli land.
You want to live with us, in this part of the world. In all sincerity I tell you we welcome you among us with full security and safety. This in itself is a tremendous turning point, one of the landmarks of a decisive historical change.
(Anwar el Sadat adress to the Knesset, November 20, 1977)
Sou pró-israel. Mas desde do início desta já esperada mortandade, que ando a evitar dizer algo…nem sei mesmo o que dizer...
Não acredito minimamente nas vulgatas de esquerda pró-palestinas, que vêm anjos onde eu vejo assassinos implacáveis: a história é bem mais complicada e nem é preciso invocá-la, basta ver o cinismo da Liga Árabe ou a forma como os refugiados são tratados nos países árabes.
Renego também as tretas pró-israel de direita, que vê simples acções militares punitivas, onde vejo crimes de guerra: a história é muito mais espessa, mas basta-me desconfiar do maquiavelismo europeu clássico - sim, pior que o americano – e da forma como Israel é tratado na imprensa; como se viver ali fosse canja; como se Telavive fosse um mero terminal de Washington; como se todo o judeu ocultasse tenebrosas intenções.
Eu não sei nada, nunca lá estive – oiço os que de lá vêm e falam de liberdade, medo ou loucura – nunca fui chamado a matar vizinhos, nem vi morrer os meus dentro de casa ou do outro lado da rua…
Só sei que há mal e que há bem, e sei que a Paz permanente tem de assentar sobre a Justiça.
Sei também que ser justo não é condenar o povo palestino ao degredo na sua própria terra, tal como não é varrer Israel do mapa.
E sei que, infelizmente, tanto o Hamas como o governo israelita, ganham legitimidade nos seus, mais com bombas do que com contenção. O Hamas! … Que líderes são estes que suicidam jovens, usam mulheres e sacrificam crianças a objectivos políticos, sejam esses quais forem?
Mas cuidado ó Israel, volto-me de novo para Sadat, cujo prémio – além do Nobel – foi a morte às mãos de irmãos; ele avisou-vos:
Israel will regret that it has given birth to springs of hatred, bitterness and fanaticism against it... America should mount pressure on Israel, particularly regarding the Palestinian question, which is the core of the problem.
(The Washington Post January 15, 1978)
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A Pérola da Macaronésia
Sob o título “Este é o parlamento de Eça de Queirós” a Publica de hoje amarga-nos novamente com um artigo sobre a palhaçada "democrática" na ilha ajardinada.Insultos - és uma cabra; ameaças - levas um tiro nos cornos; Há quem se refira a uma visita a instituição parlamentar como uma ida aos touros.
Envergonhado (?!) o líder, aquando da visita presidencial ao bananal, excluiu-a do programa: "era dar uma péssima imagem da Madeira mostrar o bando de loucos que está dentro da Assembleia Legislativa"... e com quem é que eles aprenderam?
Para quando, ó Alberto João, um referendo sobre a independência? Não, não aí, mas cá no contenente… isso sim, movia-me, acredita.
Chavez Zelig?
O director do diário TalCual, Teodoro Petkoff, escreveu num prefácio para o livro Dos Izquierdas: "Chavez é Zelig, aquele personagem de Woody Allen, que se mimetiza segundo o interlocutor que tem à frente.Com efeito, este encantador de serpentes que procura seduzir todos os que trocam palavras com ele é Zelig. Pode ser católico, muçulmano, maoísta, peronista, conservador ou até bolchevique segundo seja o Papa, Jatami, Jiang Zemin, Kirchner, Chirac ou Putin quem esteja à sua frente.(...)Manter os adversários confusos, provocá-los, enganá-los, ajuda-o desde quando os seus superiores no exército não levavam a sério as coisas do "louco" Chavez."
Alberto Barrera e Cristina Marcano no livro Hugo Chavez sin Uniforme, perante a questão "mas quem é este homem? qual de todos os Chavez que existem é o mais autentico?" respondem assim: "há algo em comum a todos (os Chavez). Um desejo. Uma ânsia que o move, que não o deixa dormir. Uma obsessão que, como todas as obsessões, dilata-se sózinha. Não se pode esconder. Seja Chavez o que seja, obsessivamente, sempre deseja poder. Mais poder"
Não sei se será assim, não vivo na Venezuela e até creio que há do bom como do mau no Chavismo - é inegável a redução da pobreza medida pelo índice de Gini, por exemplo - mas, esta é a descrição perfeita de um demagogo.
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Quem nos protegerá?
Quem nos ajudará? ... a cada dia que passa, mais e mais pessoas morrem... nós, a população civil, somos reféns, presos entre o fogo cruzado... salvem nossas vidas agora, ou será tarde demais
O horror da crise no Congo é uma mancha na consciência do mundo
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Um acontecimento feliz

A Alemanha teve a sorte de encontrar um chefe que soube juntar todas as forças do país em proveito da colectividade.
Daily Mail 10-7-1933
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Azedo
Ele acha que tem Cavaco Silva nas mãos e que este é a sua alma gémea. E que com ele conta para as suas políticas duras.Em breve descobrirá que se engana. Cavaco Silva será tudo menos um incondicional. (António Barreto no Público 23 Jan 2006)Foi por isto que votei Alegre, apenas e só, um homem íntegro sem jogo escondido (não votaria nele para primeiro ministro). Sócrates tentou aplicar uma política dura, de reformas, e eu apoiei-o; por isso votei nele.
Agora, após a "lua-de-mel", após a “cooperação estratégica”, chegámos aqui:
O actual Presidente da República não diz nada por acaso. E não foi por acaso que escolheu o dia seguinte à entrevista do primeiro-ministro à RTP para falar de obras públicas (…) Mais tarde, alertou para a “difícil situação” do país e para o facto de o “endividamento poder atingir situações insustentáveis”.Como se não bastasse, ontem o semanário "Sol" noticiava que o Chefe de Estado pediu há dois meses informações ao primeiro-ministro sobre os estudos financeiros das novas concessões rodoviárias e até agora não obteve qualquer resposta.Cavaco tem muitas reservas sobre as obras, que também têm sido o cavalo-de-batalha de Ferreira Leite desde que foi eleita líder do PSD, enquanto o Governo insiste diariamente na realização dessas obras, o que faz adivinhar dias ainda difíceis nas relações dos inquilinos de Belém e São Bento.
Talvez até discorde de algumas obras, como o TGV, mas já no caso do aeroporto acho-o essencial, até porque a maior parte do investimento é privado, até porque são obras para se fazerem ao longo de anos e não de repente.
Mas, por muito que discorde dos planos do governo, a questão situa-se noutro plano; quem é que é governo? A quem são assacadas responsabilidades pelo que é ou não realizado neste país? …
Mais: “Cavaco Silva entende que uma das suas principais funções como Presidente da República é cumprir o seu dever de fiscalização e acha que, em matéria de obras públicas, o Governo não lhe está a fornecer os dados”; sendo que a principal instância de fiscalização do executivo, entre eleições, é o parlamento, não o presidente.
Está a acontecer: Cavaco, o político hábil, presidente; Ferreira Leite, cavaquista, é candidata a primeiro-ministro; É uma questão do Poder e como sempre... quem tem poder, exerce-o. Veremos...
From Zambezi to Limpopo, may leaders be exemplary
Mas o general Constantine Chiwenga, comandante militar do Zimbabwe, respondeu ao presidente que a escolha não era só dele.Os dados obtidos pelo Post tornam claro que os militares, que perderiam fortuna e influencia se Mugabe deixasse o poder, não estavam prontos a perder simplesmente porque os eleitores tinham assinalado com uma cruz o nome de Tsvangirai nos boletins de voto.
“Um pedaço de papel não pode governar um país” disse a 4 de Abril ao Politburo do partido, Solomon Mujuru, um antigo comandante da guerrilha que já foi comandante do exército.
Craig Timbert, Publico/Washigton Post - 6/7/08
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Nevoeiro
Ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal nem o que é bem.
Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.
Parece que a velha sina portuguesa também se transmite à Europa.
Os factos estão aí; o Tratado de Lisboa, glória da presidência portuguesa, tendo de ser ratificado pelos 27 membros da união, foi recusado em referendo democrático, por uma confortável maioria num deles, a Irlanda, precisamente o modelo exemplar dos benefícios europeus.
Dizer que 1% dos cidadãos europeus não podem impor-se à vontade de 490 milhões, como já foi dito, é puro cinismo, uma vez que em mais nenhum estado membro a ratificação é feita por consulta ao eleitorado. Nem ninguém se espantava, se consultados, outros viessem igualmente a recusar o penoso documento.
Ameaçar a Irlanda com a exclusão e outras diabolizações é absoluta hipocrisia, uma vez que em democracia todos os resultados são aceites; ainda por cima com o precedente de rejeição da pseudo-constituição pela França e Holanda. Se dessa vez parou tudo, porque é que se propõe agora, passar por cima de uma vontade democrática universalmente reconhecida?
Provavelmente, as consequências imediatas do “não” irlandês, resumem-se ao adiamento do processo de adesão da Croácia - a Macedónia e a Turquia já se encontravam entravadas – e da entrada em vigor do Tratado – seria a 1 de Janeiro. As correntes anti-europeístas fortaleceram-se e a dinâmica europeia que Lisboa parecia ter ressuscitado esvaiu-se.
Mas as ratificações nos restantes oito estados da união, deverão prosseguir na lógica de isolar a Irlanda; numa cada vez mais evidente redução jurídica e política, acrescente-se.
No entretanto, os criativos de Bruxelas, hão-de desmultiplicar-se em soluções para a recorrente crise institucional.
A primeira que lhe passará pela cabeça, pode ser a repetição do referendo, à semelhança de 2001, quando a mesma Irlanda recusou por o Tratado de Nice, para vir a aprová-lo no ano seguinte (esta lógica aberrante leva a pensar na repetição anual, até dizerem sim… então pára-se).
A segunda poderá ser o ajuste, a afinação em função do freguês, como foi feito perante a recusa em 1992 do tratado de Maastricht pela Dinamarca. Aprovado no ano seguinte com a sua isenção do euro e da politica de defesa comum.
Uma terceira hipótese, mais imperial, é aquilo que já está previsto no próprio Tratado de Lisboa, permitindo aplicá-lo aos que seguirem em frente, e deixando a Irlanda (e quem mais quiser) dentro dos compromissos actuais, mas sem poderem participar nas decisões tomadas ao abrigo de Lisboa. Cria-se uma estrutura autónoma dentro da união, a que se dá a designação sui generis de Cooperação reforçada. Existem precedentes na união, algo semelhantes, como a convenção de Schengen, para a livre circulação de pessoas, que foi iniciada em 1985 por 5 estados membros e hoje conta já com 22, ou como os 11 estados que aderiram à União Económica e Monetária (zona euro) em 1999 que hoje são 15 e em breve mais. Em bom português, é o princípio do “amigo não empata amigo”.
Mas isto leva à Europa a duas, três, ou mais velocidades. Contrariamente ao propalado por muitos, o Tratado de Lisboa seria a melhor forma de balizar os directórios. Se chatearem muito (e estão a fazê-lo), as potências principais da união irão impor dois pesos e duas medidas com a correspondente marginalização dos pequenos estados. Não se podem dar ao luxo, na instável cena internacional actual, de perder o peso político induzido pela união. A França, a Alemanha, o Reino Unido, a Itália, a Espanha e a Polónia, não vão parar por exemplo, com a instituição da Segurança e Defesa comum, por mais obstáculos que lhes entravem o caminho. É, para esses estados, uma questão de poder.
O que não lhes vem à cabeça, a estas elites iluminadas da Europa, é que, mais tarde ou mais cedo, pagam o preço de uma política arrogante, distante e incompreensível aos olhos dos cidadãos europeus. Ou se aceita que é nas pessoas que reside a soberania, sejam elas pretas, brancas ou ás pintas, ou não se aceita e está tudo dito. À medida que, por medo, os que eleitos, se vão esquecendo de consultar os eleitores, se vão fechando em salas para as grandes decisões políticas - e por mais que inventem co-decisões com parlamentos, insistindo em mascarar a democracia - também irão perdendo cada vez mais a credibilidade (e legitimidade) perante aqueles a quem precisam de vender as ideias. Por melhores que sejam, essas ideias.
O que não lhes vem nunca à cabeça, a esses iluminados que sabem tudo para o nosso próprio bem, é que chega a hora de sujeitar tudo ao juízo dos tais 490 milhões. Em Portugal, nunca se referendou a Europa, nada. Sei que, também os eleitores, não ligam peva ao que mexe com a vida deles e dos seus filhos. Não votam, vão para a praia, e se votam, dizem não sem saber a quê…mas culpam sempre o que estupidamente (só pode ser isso) elegeram.
O que havia a fazer agora, se houvesse homens honestos e com coragem, era assim… anulavam-se as ratificações já feitas ao Tratado de Lisboa (nunca pensei estar tão de acordo com o Miguel Portas). Depois, durante o tempo que fosse preciso, um João Perry, uma Rosa Lobato Faria, eu sei lá... ia lendo aquilo pela TV à hora do jantar, "prime time", em todos os 27 estados da "união". A um artigo por dia, creio que 365 chegam. Não tenho a certeza, por causa da porrada de protocolos anexos, mas se aquilo encaixa em semestres universitários, há-de haver maneira... Ah! e antes de cada filme, nos cinemas... o "artiguito da semana" para aperitivo... além de manter o tratado on-line, onde há que tempos, cada um já o pode ir lá ler.
No fim, combina-se um referendo em todos os 27 no mesmo dia; quem quiser adere e submete-se, quem quiser sai. Deixa-se em aberto a possibilidade de adesão posterior aos que saem... e pronto!
Vai criar problemas e dores, pois vai. Contudo, faço notar que toda a transferência de soberania que já foi feita para a União carece de legitimidade democrática (há matérias, como as de Maastricht, que não legitimavam um parlamento a fazê-lo). Faço notar também, por outro lado, que um país como a Noruega, sem estar na União Europeia, participa nos comités e com ela conjuga a sua politica; não está, mas está... sub-repticiamente lá está. Claro, fica sempre a ver, não participa nas decisões. Mas não será ainda o fim do mundo, há muito pior nesta vida, veja-se o Zimbabwe... e, por obséquio, que se acabe com esta hipocrisia mútua de políticos manipuladores, e de eleitores irresponsáveis.
Que tal deixarmo-nos de tretas, sermos honestos?



