La force des choses
9.4.10
A verdade sobre La Lys
A participação portuguesa no teatro de operações europeu durante a I Guerra Mundial é mal conhecida pelos portugueses e pelos estrangeiros. Para as nossas gerações mais novas, o desconhecimento é absoluto: muitos não sabem que Portugal participou na guerra e até em duas frentes militares, a europeia e a africana.A ignorância estrangeira sobre a actuação do Corpo Expedicionário Português (CEP) em França é, porem, ainda mais flagrante.
Mais recentemente, alguns historiadores, como o francês Marc Ferro ou os ingleses Liddell Hart ou Martin Gilbert, têm dado maior atenção à campanha do CEP, tentando abordar questões significativas: os motivos da entrada de Portugal na guerra, a decisão de evoluir de uma neutralidade não declarada para uma beligerância, o comportamento português em La Lys e o respectivo balanço de baixas.*
A acção do CEP na Flandres costuma ser reduzida à prestação portuguesa na famigerada batalha de La Lys. Com um dia de batalha desfaz-se, com alguma leviandade, uma campanha militar de três anos que até ao fim lutou pelo aniquilamento do adversário.
Os alemães atacaram às 4 e 15 da madrugada de 9 de Abril de 1918. Pretendiam desencadear um ataque relâmpago de forma a surpreenderem as tropas luso-britânicas e a conquistarem rapidamente a zona dos vales do rio Lys e do canal Lawe. Bombardeadas as comunicações e aproveitando-se do fumo e do denso nevoeiro, a infantaria inimiga, a partir das 7 horas, galgou as trincheiras dianteiras, atravessou a terra de ninguém e tomou de assalto a 1ª linha. Habituados ao incremento dos bombardeamentos e dos raides do inimigo durante o mês de Março, muitos portugueses e britânicos nas trincheiras dianteiras não reconheceram diferenças no bombardeamento e, por isso, não alteraram o seu comportamento. Passadas algumas horas de investida alemã, já era tarde de mais. Apesar de os minhotos terem impedido os alemães de romperem a linha e atravessarem o rio Lys, os alemães tinham tomado Laventie. Impôs-se um recuo estratégico para travar o inimigo e potenciar uma recuperação futura, atitude usual na guerra de trincheiras. Ordenada a retirada, muitos militares viveram o pânico e refugiaram-se na retaguarda num processo de extravio, distinto da deserção. Aliás. Este processo de retirada, organizado ou não, não foi responsável pelo avanço ritmado alemão, pois simultaneamente aconteceu a resistência da artilharia e até ocorreram alguns contra ataques de infantaria, protagonizados por portugueses, que conseguiram demorar o processo inimigo.
A “debandada” portuguesa atribuída por alguma historiografia estrangeira nunca existiu pois os alemães demoraram cerca de três horas para percorrer uma distancia de 3.500 metros que, sem resistência, demoraria uma hora e na zona de Estaires, a Infantaria 29, originaria de Braga, conseguiu resistir cinco horas na Red House permitindo o reposicionamento adequado das reservas no rio. Com a noite de 9 de Abril, chegou ao fim a missão portuguesa na batalha: resistir ao avanço alemão o mais tempo possível de forma a proporcionar o movimento de tropas britânicas até ao sector flagelado. Porem, esse dia não pôs fim à nossa campanha militar em terras flamengas. Ainda a 10 de Abril, em La Couture, se vai lutar pela manutenção de uma 1ª linha que na retaguarda se julgava perdida e, quando reorganizada, o CEP vai participar, meses mais tarde, na contra-ofensiva aliada e entrar na Bélgica.
O saldo da operação militar desencadeada pelo exército alemão em Abril-Maio de 1918 foi impressionante e, apesar de começar com uma retirada, marcou o início da ofensiva aliada, com um comando geral unificado, na senda da vitória. Não se pode é confundir esta batalha de resistências, de retiradas organizadas e até de fugas generalizadas, com os dois anos de campanha efectiva e com a permanência dos portugueses em França até Março de 1919. A campanha portuguesa na Flandres, parte activa da campanha aliada, merece maior atenção pela historiografia estrangeira que insiste ainda em apresentar o “9 de Abril” como um mero bombardeamento de 24 horas, desaire e responsabilidade exclusiva portuguesa, prenuncio da batalha de La Lys. Urge, por isso, desmistificar mitos e esclarecer factos num diálogo aberto, coerente e rigoroso, sem duelos nacionalistas.
Isabel Pestana Marques in Visão História nº 4 “Portugal nas trincheiras: a I guerra da Republica” Fevereiro 2009
*O balanço do primeiro embate foi pesado. Luís Alves de Fraga, professor universitário autor de estudos sobre o tema, fornece um balanço preciso das baixas portuguesas na batalha de La Lys: 30 oficiais, 33 sargentos e 551 praças mortos, enquanto são feitos prisioneiros (incluindo muitos feridos) 270 oficiais e 6.315 sargentos e soldados. Metade dos efectivos portugueses colocados em primeira linha é morto ou feito prisioneiro. No total, o número de mortos portugueses em toda a intervenção – de 2 Fevereiro de 1917 a 11 Novembro de 1918 – situa-se nos 7.000 mortos entre 55.000 homens mobilizados.
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21.2.10
Giraldo Sem pavor
O pérfido galego Afonso Henriques, senhor de Coimbra - o maldito de Deus - conhecia bem a valentia do cão Giraldo. O pensamento constante deste era tomar à traição as cidades e os castelos, só com sua gente: ele tinha os mulçumanos da fronteira sob o terror das suas armas. Este cão procedia assim: avançava, sem ser apercebido, na noite chuvosa, escura, tenebrosa e, insensível ao vento e à neve, ia contra as cidades. Para isso levava escadas de madeira de grande comprimento, de modo que com elas subisse acima das muralhas da cidade que procurava surpreender; e quando a vigia mulçumana dormia, encostava as escadas à muralha e era o primeiro a subir ao castelo. E empolgando a vigia dizia-lhe:
- Grita como tens por costume de noite que não há novidade! - E então os seus homens de armas subiam acima dos muros da cidade, davam na sua língua um grito imenso e execrando, penetravam na cidade, matavam quantos encontravam, despojavam-nos, e levavam todos os cativos e presa que estavam nela.
(Ibne Sáhibe Açalá)
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15.2.10
A revolução de 1910: a Carbonária Portuguesa
Segundo Pulido Valente, a origem da organização secreta - também conhecida por Floresta ou por Sociedade – não se distingue com especial clareza na confusa historia das associações secretas que a partir dos anos 90, surgiram em Lisboa, juntando desde anarquistas individualistas a puros republicanos. Entre 1900 e 1902 os anarquistas dividiram-se em duas facções: os puritanos e os intervencionistas. Enquanto os primeiros condenavam qualquer colaboração com o PRP os segundos tencionavam mudar o partido por dentro, transformando-o num partido revolucionário.
Parece ter sido a partir desses princípios intervencionistas que em 1850, o bibliotecário Luz de Almeida organizou uma dezena de grupúsculos clandestinos, compostos por elementos pequeno-burgueses, mas pouco depois abertos a “todos as classes sociais”. Conforme o próprio Luz de Almeida reconheceu a estrutura da CP não passava de uma cópia do modelo italiano. A unidade básica era um canteiro de cinco homens. Quatro chefes de canteiro constituíam uma choça, quatro chefes de choça uma barraca, quatro chefes de barraca uma venda, e por fim os chefes da venda elegiam uma única Alta Venda de três membros, que dirigiria a Floresta inteira. Os membros da sociedade tratavam-se por primos e aos estranhos pagãos. Havia quatro categorias hierárquicas: rachadores, carvoeiros, mestres e mestre-sublimes. Só os mestres acediam às barracas e às vendas e só os mestre-sublimes à Alta Venda.
A CP era um genuíno movimento popular, conforme Pulido Valente prova, numa amostra exaustiva de carbonários presos entre 1908 e 1910. Em 400 primos, 44% pertenciam às classes trabalhadoras, 14% às camadas baixas da pequena burguesia e 34% às camadas médias.
Não apenas porque era a CP popular, mas também porque era uma “sociedade secreta”, os intelectuais do PRP nunca conseguiram nela exercer influência significativa. A CP não precisava de gente “educada”, nem lhe interessavam oradores panfletários: os mestre-sublimes como Luz de Almeida e Machado dos Santos não tinham o estilo rebarbativo do demagogo republicano. Prosperavam na sombra, conspiravam pelas tabernas e cultivavam o anonimato; em 5 de Outubro ninguém os conhecia.
Como todas as organizações do género, entre 1896 e 1906 a CP viveu numa mediocridade resignada. Mas a ditadura de João Franco e o escândalo dos “adiantamentos” criaram um clímax de agitação que, a partir de 1907 permitiu o seu rápido desenvolvimento. Em Janeiro, as choças de Lisboa atingiam 8.000 membros e as do Barreiro, Almada e Setúbal cerca de 2.000. Machado dos Santos mandou cada carbonário arranjar um primo no Exercito. No princípio de 1909 já se contavam centenas de primos na guarnição da capital. No verão de 1910, a Policia monárquica informou que os bons primos eram entre 8.000 e 10.000. Luz de Almeida fala em 34.000 no Outono de 1909.
(tirado de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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A revolução de 1910: o Partido Republicano Português
Lidos e criados na história da Revolução Francesa, como diz Pulido Valente, os moderados do Partido não queriam acabar como qualquer girondino às mãos dos sans-cullotes portugueses, assanhados pela facção radical, a qual por sua vez desconfiava igualmente das massas populares, apesar de se sentir tentada a utilizá-las.Os moderados entendiam que a Republica surgiria de um “levantamento nacional” que num dado momento, indeterminado, poria fim à Monarquia, sem precisar de ser forçado pelo PRP. Mas segundo Pulido Valente, os radicais, apoiando a conspiração em detrimento do legalismo, no fundo também não se entusiasmavam de verdade, desconfiavam da “canalha”, ou seja, pelo povo em que não tinham a certeza de mandar.
Após o golpe falhado do Porto de 1891, feito à revelia do cauteloso Directório, os notáveis moderados e radicais aproximaram-se na doutrina do “pronunciamento militar”, segundo a qual, só uma acção do Exército sob a direcção de oficiais generais, resolveria o problema da “revolução” a contento de todos. Para os doutores do PRP, os soldados não contavam por se tratar de “povo ignorante” – como o da revolta do Porto, classificada por João Chagas de "sargentada” – e só a oficialidade, uma elite culta, tinha a capacidade e também a responsabilidade, de abrir as portas do futuro. Não que o exército devesse, por regra, imiscuir-se na politica, mas no caso vertente, de conflito civilizacional entre a nação e o poder, era forçoso que se “pronunciasse”, sob pena de obstaculizar o progresso politico ficando na História como um exército de “pretorianos do rei”. Quando em 28 de Janeiro de 1908, o Partido tentou derrubar João Franco e a Monarquia, sem recorrer à perigosa colaboração da base, era essa equívoca “filigrana” teórica que o enformava. Os “salvadores da Pátria” pensavam em termos de golpe, não de levantamento, e falharam rotundamente. Porque a maioria dos oficiais, se não apoiava a Monarquia, nunca conspiraria contra ela. Dominados facilmente e presos, foram salvos in extremis do degredo em África, pelos assassinos do rei Carlos.
Entretanto, o tal “povo republicano”, sem pedir a bênção da direcção do Partido, foi-se livremente organizando, e mergulhou de forma autónoma na via revolucionária.
(tirado de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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A revolução de 1910: o Exército Português
Para compreender a vitória republicana de Outubro, Pulido Valente considera necessário compreender a posição do Exército e, em que medida estava capaz de esmagar uma insurreição.Os oficiais consideraram a “acalmação” dos rotativos uma espécie de traição. Para mais nos últimos três anos da Monarquia, a evolução dos acontecimentos pareceu combinada para hostilizar o Exército. Na Primavera de 1910, os republicanos descobriram uma nova série de “escândalos financeiros” em que andavam comprometidos vários grandes caciques progressistas. O Exército reagiu de duas maneiras: a maioria refugiou-se na tradicional indiferença pela vida pública, e uma pequena minoria de ultras começou a conspirar e planeava “pronunciar-se”.
Quando a revolução rebentou os partidos históricos não contavam com o apoio das Forças Armadas. A Carbonária aliciara centenas de soldados e os oficiais estavam divididos entre uma minoria de ultras, que conspirava contra o regime, e uma maioria de indiferentes com um velho ódio corporativo ao Rotativismo. De qualquer descrição do 5 de Outubro, um ponto ressalta claramente: a relutância do Exército em lutar.
(de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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14.2.10
A revolução de 1910: a Igreja Católica
A propósito do centenário da morte do Marques de Pombal, a ala activista do PRP tentou explorar o anticlericalismo, mas falhou. Nem mesmo o público informado, identificava o regime com a “reacção religiosa”. O PRP não conseguiu convencer ninguém de que os jesuítas manipulavam a Monarquia. Contudo, apesar de uma semi-clandestinidade – porque a Monarquia era genuinamente liberal – a Igreja prosperava. A coisa adormeceu.Em 1908 as circunstâncias modificaram-se. Carlos morrera, mas a Monarquia mantinha-se. Para mais com uma certa influência da rainha-mãe, Amélia, dita “a beata”. Os republicanos voltaram à carga com a “questão religiosa” e a ideia de que os jesuítas manobravam a rainha e através dela, o rei. Desta vez funcionou, até porque à medida que os partidos históricos se dissolviam, a franja ultramontana tentava-se impor como pilar do regime, numa Liga Monárquica, envolvendo restos de miguelismo, de franquismo e outros monárquicos intransigentes. A própria Igreja mudou, e se antes procurava não se imiscuir nos assuntos públicos, depois de 1908, quando a fraqueza do regime se tornou patente, tentou correr em seu auxilio, por exemplo, com missas de “desagravo” a Deus, presumivelmente ofendido pela impiedade republicana.
Para desgraça do próprio regime, a atitude dos bispos foi de firme resistência a qualquer concessão liberal a que os governos se sentissem tentados. Em 1910, o Directório declarava oficialmente que a “reacção politica” e a “reacção religiosa” já não podiam separar-se.
Depois da revolução de Outubro, será com o argumento da “Questão religiosa” – a Lei da Separação – que Afonso Costa lançará a violência radical. Nessa altura, a Igreja incorporará de facto (numa outra semi-clandestinidade, de sobrevivência) o referencial da oposição de direita anti-republicana. E em 1928, com Oliveira Salazar, virá a revanche.
(subtraído ao Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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4.2.10
A revolução de 1910: os actores
Fazer vingar a causa do povo em Portugal é operar uma obra de prodígio. O povo não está feito. É fazê-lo. Não é ressuscitá-lo. Ele nunca existiu. Na realidade é dar-lhe nascimento e mostrá-lo à própria nação assombrada, como um homem novo e sem precedentes.(João Chagas, Cartas Políticas, 12 de Abril de 1909, citado por Pulido Valente)
Mais do que programas de governo, os republicanos eram portadores de um projecto de transformação fundamental da Humanidade. Descendentes directos das “luzes”, acreditavam que através da “educação” podiam criar um novo homem – ideia que os marxistas retomarão, com base numa classe específica e, talvez, maior dose de realismo… mas também não os ajudou muito. Seja como for, a citação de João Chagas transmite bem a arrogância com que os filhos das “luzes” resolveram terraplenar as crenças antigas, para reconstruir o homem do povo. Claro está, que nesta perspectiva, o povo não contava como actor, pois nem existia; no seu lugar só existia uma massa bruta que por vezes, com repulsa, se designava por a “canalha”.
Em compensação, o “poder”, isto é, os actores políticos institucionais em Outubro de 1910, seriam vários. Desde logo o rei, o governo e as Cortes; para lá destes, as duas organizações perenes da nação portuguesa, a Igreja Católica e o Exército. Em seguida, a oposição ao regime, o Partido Republicano e uma organização, nessa época incontornável, a Carbonária Portuguesa. Contudo, segundo Pulido Valente, decisivas de facto, só foram a abstenção do Exercito e a acção da Carbonária.
O jovem rei Manuel II, diz-nos Pulido, ao contrário do pai, não era senhor de si. Era um adolescente ingénuo que se deixava usar. O prestígio de Carlos fundava-se na sua independência, mas por detrás de Manuel espreitavam os detestados políticos do Rotativismo. As Cortes e o Governo, pouco relevo tiveram também, porque ao contrário do que se pensava, não tinham o apoio do Exército.
Quando depois do assassínio de Carlos, os partidos rotativos voltaram ao poder, resolvidos a acalmar o país, a oficialidade considerou a “acalmação” uma retirada cobarde. De 1908 em diante, os partidos “históricos” sofreram mais divisões e conflitos internos do que nunca e as Cortes tornaram-se ainda mais desordeiras e impotentes, enquanto o PRP a pouco e pouco emergia como a única alternativa ao caos. A constituição do governo de Teixeira de Sousa, em Julho de 1910, destruiu as últimas razões que a oficialidade ainda poderia ter para defender o regime, visto que, de modo geral, achava o homem, “um aliado dos republicanos”. (in O Poder e o Povo)
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2.2.10
A revolução de 1910: a ascensão
Estabeleceria a ascensão do Partido Republicano Português ao poder nas sete etapas seguintes:1. As comemorações do centenário de Camões em 1880 (favorável)
2. O ultimatum inglês em 1890 (favorável)
3. A revolta republicana no Porto em 1891 (negativa)
4. A ditadura de Hintze Ribeiro em 1893 (negativa)
5. A divisão do PRP em 3 Juntas Directivas em 1902 (negativa)
6. A questão dos tabacos” em 1903 (favorável)
7. A ditadura de João Franco e o escândalo dos adiantamentos em 1906-07 (favorável)
8. O regicídio de 1908 (a causa próxima e determinante)
1. Quatro anos depois de fundado o partido atraiu a atenção do país, ao organizar, em 1880, as comemorações do 3º Centenário de Camões. Daí em diante não deixou de crescer em número e influência. Criavam-se constantemente novas comissões, clubes, centros e jornais, e um deles, “O Século” depressa alcançava projecção nacional.
2. Passados dez anos, em 1890, a crise do ultimatum inglês, por causa do “Mapa cor-de-rosa”, trouxe ao PRP uma força sem precedentes. Recordemos que Portugal sofrera no início do século XIX uma serie de choques: as invasões francesas, a fuga do rei, a sujeição aos ingleses, a independência da jóia da Coroa (Brasil), e depois as revoluções falhadas com intervenções estrangeiras descaradas. Desde 1820 que o país vivia sob o signo da humilhação. Ao advogar a resistência inflexível (e demagógica), o PRP promoveu-se como esperança e veículo do patriotismo português, por oposição à desonra nacional, concentrada na dinastia dos Bragançãs, que nunca haviam hesitado em “vender” a Nação para “se conservarem a si”.
3. Apesar de abalada, a Monarquia não deu sinais de cair e os elementos extremistas decidiram recorrer à violência. Em 31 de Janeiro de 1891, contra ordens expressas do Directório, fizeram uma revolta no Porto e foram esmagados. O clima de histeria gerado colocou o PRP em sérias dificuldades, permitindo à Monarquia não só fechar um número considerável de centros republicanos, mas também silenciar os respectivos jornais.
4. Em 1893, Carlos lançou Hintze Ribeiro numa ditadura administrativa. Talvez por causa da sua irrelevância politica o PRP aceitou aliar-se ao Partido Progressista, um dos parceiros do Rotativismo, formando uma “Coligação Liberal”. Durou cerca de três anos e quase destruiu o PRP. A ala radical condenou o oportunismo do Directório e resolveu afastar-se do Partido, fundando um Grupo Republicano de Estudos Sociais.
5. Em 1902, o Partido entrou em dissolução, e o Congresso desse ano retirou o poder ao Directório, entregando-o a três juntas directivas, do Norte, do Centro e do Sul. Desde 1891 que a repressão aumentava enquanto o desânimo se generalizavam entre os republicanos. A Monarquia transformara a Guarda Municipal – os pretorianos do rei, como eram conhecidos – numa sólida força de combate de rua e legalizou-se a deportação perpétua, sem julgamento, para crimes políticos.
6. Durante vinte anos a corrupção constituiu o principal e mais regular alimento da propaganda republicana. Os delitos variavam muito mas podem ser reduzidos a três espécies: concessão indevida de fundos públicos, tráfego de influências e um grupo de coisas menos subtis, tais como falsificações e desfalques. Os republicanos, para além de se considerarem como modelo de virtude, insinuavam que, se o povo era espremido por impostos e a dívida do Estado não parava de crescer, era apenas devido à necessidade de sustentar a “camarilha” rotativa e o respectivo chefe, o rei.
Para o regime, o mais prejudicial de todos os escândalos foi, sem dúvida, a chamada Questão dos tabacos, entre 1903 e 1905. É impossível explicar sumáriamente as suas perversas complexidades, mas podemos dizer que o negócio do tabaco era um dos maiores que existiam em Portugal e o monopólio da sua exploração, pela Companhia dos Tabacos, sempre foi controverso. Porque servia também de penhor para os empréstimos que eram concedidos ao Estado português. As questões levantadas pela renovação dos contratos do tabaco e dos fósforos, conjugadas com um empréstimo de 65.000 contos ao governo de Hintze, levaram à sua queda e dividiram o Partido Progressista, o que juntamente com a cisão de Franco, tornou o Rotativismo inoperante.
7. Em 1906 o rei tinha já compreendido que o Rotativismo estava esgotado, e que não resistiria à violência popular em Lisboa. Segundo Pulido Valente, existiam duas soluções: reprimir pela força a agitação urbana (como a seguir se fez na ditadura) ou integrar o radicalismo no regime através de um novo arranjo partidário e de eleições, por assim dizer, “honestas”. Apoiando a ditadura militar de João Franco, o rei tentou a “segunda via”. Mas a “segunda via”, com 62% da população na agricultura e 75% de analfabetos, para não falar na quase completa ausência de indústria fabril, era inteiramente ilusória. Tarde ou cedo acabaria mal.
Para piorar as coisas, veio a saber-se que desde 1890, todos os ministérios tinham feito empréstimos ilegais ao rei. João Franco comunicou estes factos ao Parlamento justificando que os empréstimos não passavam de “adiantamentos”. Mas é evidente que nenhuma pessoa honesta se prestaria a receber “adiantamentos” secretos durante vinte anos, sem nunca os repor. Afonso Costa ameaçou o rei de “cadeia” e, como é natural, o episódio varreu o que ainda restava de prestígio monárquico.
8. Na opinião de Pulido Valente, a partir do momento em que o rei proclamou a necessidade de estabelecer uma ditadura militar, só duas coisas podiam salvar os seus inimigos republicanos: uma revolução ou um crime. Experimentaram primeiro uma revolução – 28 de Janeiro de 1908 – e falharam. O governo prendeu o estado-maior do PRP e preparou-se para o deportar. Três dias mais tarde, a 1 de Fevereiro, Carlos, que estava de férias em Vila Viçosa, regressou a Lisboa. Formou-se um cortejo de vitória em coche aberto, a caminho do Paço e, andados uns metros deu-se o Regicídio: dois militantes republicanos abateram o rei e o príncipe herdeiro. Sem o apoio do rei e a obediência incondicional que este inspirava ao Exercito, Franco nada podia. A 2 de Fevereiro, o herdeiro Manuel II, substituiu-o por uma coligação de regeneradores, progressistas e independentes.
Mas no caso do rei ter sobrevivido, talvez tudo tivesse sido diferente. Carlos e Franco, em 1908, não enfrentavam uma revolução. As dificuldades diplomáticas e financeiras do princípio do reinado haviam sido ultrapassadas. Havia um movimento Republicano em Lisboa, mas o regime tinha sobretudo de lidar com o desespero de alguns políticos que o Rei preterira a favor de Franco, e que, no seu despeito, não haviam hesitado coligar-se com os republicanos para o derrubar. Sem muito sucesso: não tinham conseguido levantar o povo nem o exército e o núcleo dos conspiradores era pequeno. Se os seus líderes tivessem sido expulsos do País, como estava previsto, provavelmente não se teriam encontrado lideranças para novas tentativas revolucionárias. Por isso, um dos inimigos de D. Carlos, Júlio de Vilhena reconheceu nas suas memórias: “se o Sr. João Franco guarda naquele dia a pessoa do Rei, a ditadura estava vencedora e o Partido republicano, com a prisão e julgamento dos seus principais chefes, ferido na medula por vários anos”.
Por tudo isto, considero como causa próxima e eficiente da revolução, daí a dois anos e nove meses, o regicídio do rei Carlos.
(depois de ler Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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1.2.10
A revolução de 1910: a ideologia
Quando em 1903, a chamada “geração do ultimatum” começou a reconstruir o Partido, não havia no Porto uma comissão municipal. Contudo, os homens de 1903 não partiram do nada, herdaram um complexo corpo de tradições. Segundo Pulido Valente, as formas ideológicas específicas do Republicanismo português foram determinadas pelo estatuto social dos quadros dirigentes do PRP, e não passam de uma adaptação de ideias já velhas na Europa de então.Três factores terão potenciado essa ideologia:
a) O nacionalismo, a velha preocupação com a “decadência pátria”, um factor social permanente na História de Portugal, mas que sem a semi-colonização inglesa pouco teria pesado. Foi o “ultimato” o seu catalisador. A crise dividiu a nação em dois campos inimigos: por um lado a pequena burguesia urbana, e sectores do operariado oficinal, prontos a vingar a “injúria” e a “erguer a Pátria nos braços”; por outro, os adoradores do “Deus Milhão”, representados pelos “porcos da vara de Bragança”, que a “sangravam” e iam, a seguir, indiferentes, “caçar” enquanto o “estrangeiro odioso ria”. Depois do ultimatum, o PRP encarnou Portugal.
b) A evolução interna do partido republicano que, começou por se considerar um grupo distinto na sociedade portuguesa, mas que a pouco e pouco foi tomando consciência da marginalização que ia sofrendo, da subordinação aos partidos dominantes. A vida do PRP corresponde quase dia a dia à vida do Rotativismo, a corrupção e os “escândalos” desempenharam um papel central na formação da consciência republicana. Acreditava-se que, mal se deixasse de sustentar os “acumuladores” e “parasitas” monárquicos, o orçamento se reduziria a metade; sonhavam com um mundo onde todos tivessem os mesmos privilégios e oportunidades, numa visão essencialmente igualitária. O Partido apresentava-se à nação como paradigma de virtude, perdido num mundo pecaminoso, começando a ver-se a si mesmo como um movimento de interesse universal, verdadeiro “corpo da nação”.
c) Após as comemorações do “Tricentenário de Camões”, o partido tentou sem sucesso mobilizar a opinião “anti-jesuíta”. Mas foi só após 1909 que a campanha passou a ter êxito, porque o regime monárquico abandonou o seu liberalismo e passou a apoiar-se nos católicos ultramontanos (os famosos poderes ocultos). O anticlericalismo foi um factor circunstancial e operativamente importante, apenas porque a Monarquia sobreviveu à ditadura de Franco e à morte de D. Carlos. A violência exercida contra a “corja jesuítica” depois da revolução de Outubro, explica-se largamente pelo clima de histeria então criado pelo PRP.
(respingado de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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31.1.10
A revolução de 1910
A tese do doutor Vasco Pulido Valente, editada há mais de trinta anos, sob o pseudónimo de “O Poder e o Povo”, incidiu precisamente sobre o objecto da comemoração em voga: a implantação da República. Daí, vou respingar por aqui umas postas…Dizia outro autor, António Pedro Mesquita, que de um modo geral, todo o pensamento republicano é jacobino; a Republica é essencialmente a consagração do ideal jacobino de 1820 (desde logo, a tríade: Liberdade, Igualdade, Fraternidade), permitindo superar as contradições da monarquia representativa, reivindicando o primado, daí por diante absoluto, do princípio democrático, quer dizer, do primado da soberania nacional.
Pois, também Pulido Valente considera que o republicanismo esteve sempre presente nos movimentos anti-absolutistas do século XIX. E a Monarquia para se manter, desde a revolução de 1820 até à sua queda em 1910, apoiou-se sempre nos moderados contra a ala do jacobinismo urbano. Essa ala intransigente foi absorvida e domada pela Regeneração a partir de 1852, mas apesar disso manteve-se sempre uma tradição vintista e antimonárquica, semi-adormecida, que só acordará em 1903, com o Partido Republicano Português.
O republicanismo latente, que sobrevivia no “Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas”, estava associado ao socialismo utópico de Babeuf, Saint-Simon, Fourier e Proudhon. Mas a partir de 1871, a influência de Marx – I Internacional, formação da Associação Internacional de Trabalhadores – e o episódio empolgante da Comuna de Paris (demostrando a realização da utopia), acordaram do sono letárgico, o anarquismo e o socialismo revolucionário, surgindo as primeiras greves modernas. Estes acontecimentos, deram um novo vigor à componente socialista do Centro Promotor, o que afastou também muitos membros burgueses com ideias republicanas.
Cabe agora referir uma diferença essencial entre republicanismo positivista e socialismo marxista. Segundo o pensamento positivista enformador do Republicanismo, havendo saído há séculos do primitivo estado teocrático, a humanidade aproxima-se lenta, mas firmemente, da realização da “sociocracia” (isto é, da Republica). É portanto uma inevitabilidade histórica, inerente à “evolução” das civilizações, e daqui decorre o fraco investimento doutrinário dos pensadores republicanos.
Contrariamente, para o marxismo, a questão do progresso, nem se coloca numa evolução em três estádios, nem é o intelecto “iluminado” que determina a matéria. Inversamente, pensam os marxistas que é a matéria que age sobre o “espírito” – a infra-estrutura que determina a super-estrutura – e são as condições materiais (particularmente as económicas) que determinam a consciência e o pensamento; é delas que nasce a conflitualidade entre dominantes e dominados, que faz progredir a História. Isto é o contrário do Positivismo, em que se baseavam os burgueses republicanos.
A diferença radical entre o Republicanismo e o Socialismo de raiz marxista (dito socialismo real) é que enquanto os primeiros postulam ser o intelecto que, agindo, determina a matéria, os segundos afirmam exactamente o contrário.
Os socialistas marxistas queriam a revolução para mudar o curso dos acontecimentos; os republicanos apenas esperavam que esse curso se desenrolasse, como exprimiu Bernardino Machado “Não serão por isso os republicanos que hão-de precipitar a revolução. O que pode torná-la iminente é a coacção reaccionária. Desgraçadamente, assim como, por nossa vontade, a não faríamos, assim também não é só à nossa vontade que ela se fará.”
A cisão foi-se abrindo com o tempo e a criação do Partido Socialista Português em 1875 e do Partido Republicano Português (PRP) em 1876 consumou-a. Mas a fraqueza da indústria fabril em Portugal e, portanto, da massa de manobra essencial que é o operariado fabril, teve como consequência que o PS ficasse para sempre uma nulidade politica. Por outro, explica Pulido Valente, o PRP cristalizou nas formas pobres e brutais do jacobinismo clássico, não chegando nunca a adquirir uma orientação “socializante”.
(humildemente mal respingado, de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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18.12.09
Materialismo Histórico
Funda-se no Historicismo hegeliano, mas o aspecto prático dos factores económicos, vão diferenciá-lo bastante. Marx procura a explicação do desenvolvimento humano nos processos económicos, que considera o motor da História, sendo os outros elementos sociais como a filosofia, a religião ou a cultura, apenas aspectos da “super estrutura ideológica” – o material determina o imaterial; “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas ao contrário, é o ser social que determina a sua consciência” A história de todas as sociedades até aos nossos dias é a história da luta de classes. Opressores e oprimidos, em oposição constante, mantiveram lutas que terminaram sempre, ou por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela desaparição das duas classes em luta. A luta de classes exprime as contradições entre elas, gerando revoluções cíclicas e novas realidades sociais. A estratificação social e o desenvolvimento histórico são determinados essencialmente pela economia, isto é, pelas relações de produção (conjunto de relações materiais entre os homens, de que é exemplo modelar a propriedade). Segundo o princípio dialéctico, cada forma social gera contradições internas que se resolvem pela revolução.
A acumulação é o objectivo da economia do capital, fundada sobre a moeda que, dissimulando o carácter social do trabalho, facilita a referida acumulação, ao contrário da economia de troca. Nalguns pontos, como o a abolição da propriedade privada, Marx concorda com os socialistas utópicos, mas contra eles defende a necessidade de desenvolvimento, para que a mecânica interna do capitalismo, aumente as desigualdades, permitindo o advento do Comunismo (uma Teleologia politica).
17.12.09
Historicismo
Designa uma forma de abordagem dos fenómenos e das culturas humanas. De acordo com Ernst Troeltsch, o termo remete a uma "historicização fundamental de todo o pensamento acerca dos seres humanos, da sua cultura e dos seus valores"
O historicismo constitui a base de uma visão de mundo tipicamente moderna e ocidental. Fundamenta-se na noção de que as configurações do mundo humano, num dado momento, são sempre o resultado de processos históricos de formação, os quais são passíveis de ser mentalmente reconstruídos, e portanto, compreendidos. Trata-se de uma abordagem das ciências sociais, que pressupõe que a previsão histórica é o seu objectivo primordial, e que pressupõe igualmente que este objectivo é atingível ao “descobrir os padrões e as leis que estão subjacentes à evolução da história” (Karl Popper)
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16.12.09
Friedrich Hegel (1770-1831)
Concebeu, entre outras ideias, uma forma de pensar e uma filosofia da História. "A Dialéctica pretende ser a essência do pensamento e da realidade: chamamos dialéctica ao movimento racional superior, no qual termos aparentemente separados passam de uns para outros espontaneamente, pela própria essência daquilo que são, eliminando assim a hipótese da sua separação" (Hegel, Ciência da lógica) Significa isto que, toda a tese contem já em si mesma a sua antítese, e ambas serão suprimidas através de um processo designado por síntese. É devido a esta ideia, que os fenómenos históricos não são para Hegel, aparições fortuitas, mas fases necessárias no desenvolvimento de um organismo enriquecido.
A sua filosofia da história repousa no princípio de que a razão domina o mundo, e de que a Historia Universal se desenrola sob um signo racional: "O fim da Historia Universal é pois que o Espírito Universal chegue ao conhecimento daquilo que verdadeiramente é, e faça desse conhecimento um objecto, o realize num mundo concretamente presente, e o exprima com objectividade" (Hegel, Filosofia da História)
Os actores da História são apenas os administradores do Espírito Universal. Do teísmo idealista ao ateísmo materialista – donde a separação entre hegelianismos de direita e de esquerda – este último grande sistema filosófico do século XIX, veio a influenciar todas as ciências humanas do século XX.
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1.9.09
1939 começou a guerra!
Às 4:45H o exército alemão atravessou a fronteira polaca, iniciando a execução do Fall Weiss (Plano Branco).As tácticas da Blitzkrieg (guerra relâmpago) são executadas por 53 divisões com 1.500.000 homens divididas em dois grupos de exércitos (Norte e Sul), apoiados por 2.600 tanques e 2.000 aviões.
Face a esta força encontram-se 39 divisões polacas com 900.000 soldados bem treinados e motivados, mas com tácticas e equipamentos ultrapassados
A Segunda Guerra Mundial estendeu-se, a partir de 1939, por seis longos anos.
Pelo número de estados envolvidos, pelo número de soldados mobilizados e de armas utilizadas, pela diversidade de cenários onde se desenrolaram as batalhas e pelo número de baixas, pode considerar-se este conflito como uma Guerra Total.
De hoje em diante tentarei lembrar os principais acontecimentos, como se revivesse essas fúnebres noticias, que durante 2.194 dias foram marcando a existência da mais desgraçada geração humana.
As causas mais remotas têm raízes na Paz de Paris e nos sequentes tratados de Versailles a Sévres.
A Alemanha, a própria Itália, e alguns dos novos estados balcânicos, constituíam focos de descontentamento, desafiando o sistema internacional estabelecido pós Primeira Grande Guerra.
A Grande Depressão que se desencadeou em Outubro de 1929 na América, estendeu-se à sociedade europeia, impedindo o pagamento das brutais indemnizações de guerra alemãs à França e Inglaterra.
Por outro lado, a ascensão dos regimes totalitários de cunho fascista – particularmente em Roma e Berlim – legitimavam politicamente e davam peso militar ao descontentamento reinante.
As causas imediatas produziram-se entre 1936 e Agosto de 1939.
Em Março de 1936 o chanceler alemão ordenou ao exército do III Reich a ocupação a zona desmilitarizada do Reno alegando que a França asfixiava e cercava. Os protestos de Londres e Paris de pouco valeram, e assim se violou um dos acordos de 1919, ratificado em Locarno em 1925.
Os passos seguintes só foram agravando as relações entre a Alemanha – foco do revisionismo internacional – e as democracias ocidentais, garantes do Tratado de Versailles e da Sociedade das Nações.
A ajuda prestada por Berlim e Roma na insurreição contra a II Republica espanhola a partir de Julho de 1936 ampliou a hostilidade entre os governos fascistas e o par anglo-francês.
Em Setembro de 1938, imediatamente após o Anschluss (incorporação da Áustria no Reich) Hitler deu mais um passo para a guerra com a anexação dos Sudetas Checo-eslovacos. Como na Áustria, justificou-se com a elevada percentagem de população alemã.
Londres e Paris cederam mais uma vez pelo Acordo de Munique.
A cedência alimentou, por um lado a audácia de Hitler, que conquistava território sem custos, e por outro o sentimento derrotista nas democracias; perante isto Sir Winston Churchill exclamou “You have chosen dishonor over war. You shall have both”
Uma terceira consequência dessa capitulação, foi a de levar Stalin a pensar que as democracias, atemorizadas perante a Alemanha, entregavam vítimas (Checoslováquia) para apaziguar a fera, e lhe reorientar os apetites para Leste. Temeu que as democracias aceitassem outro Munique à custa do estado Polaco, o que colocava a União Soviética – já fragilizada pela derrota na guerra de Espanha – na primeira linha da ambição alemã. Tratou portanto de firmar um Pacto de não-agressão solicitado por Hitler, que ficava com as mãos livres para atacar a Polónia. Em segredo a Alemanha e a União Soviética acrescentavam a divisão das esferas de influência no Leste, partilhando a Polónia e dando à União Soviética poder sobre os pequenos estados bálticos e Finlândia.
Quando a Whermacht iniciou o ataque à Polónia, Londres e Paris não puderam salvá-la, mas assumiram o compromisso contraído com Varsóvia, declararando guerra ao III Reich.
Segundo testemunhos, Hitler pensava que iriam ceder. Mas tinha também outras razões para avançar: a idade (50 anos) incitava-o a não adiar mais os seus “grandes desígnios”; a economia alemã, fragilizada pela enorme despesa militar, obrigava-o a procurar (pela força se necessário) os recursos que lhe começavam a faltar; e provavelmente também, o salto em frente para a loucura, essa “prova última do Homem”, emocionava e atraía a sua ambicição megalómana.
Sem que percebessemos claramente - era ainda um conflito europeu, localizado - assistiamos ao início de algo com uma dimensão gigantesca: uma segunda guerra planetária.
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13.6.09
The beginning

And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
Through the unknown, unremembered gate
When the last of earth left to discover
Is that which was the beginning;
At the source of the longest river
The voice of the hidden waterfall
And the children in the apple-tree
Not known, because not looked for
But heard, half-heard, in the stillness
Between two waves of the sea.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
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12.6.09
Who then devised the torment?
The dove descending breaks the airWith flame of incandescent terror
Of which the tongues declare
The one discharge from sin and error.
The only hope, or else despair
Lies in the choice of pyre of pyre —
To be redeemed from fire by fire.
Who then devised the torment? Love.
Love is the unfamiliar Name
Behind the hands that wove
The intolerable shirt of flame
Which human power cannot remove.
We only live, only suspire
Consumed by either fire or fire
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
Etiquetas: filosofia, história, poesia
11.6.09
Every poem an epitaph
What we call the beginning is often the endAnd to make and end is to make a beginning.
The end is where we start from.
And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home,
Taking its place to support the others,
The word neither diffident nor ostentatious,
An easy commerce of the old and the new,
The common word exact without vulgarity,
The formal word precise but not pedantic,
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning,
Every poem an epitaph.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
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10.6.09
A symbol perfected in death
We cannot revive old factionsWe cannot restore old policies
Or follow an antique drum.
These men, and those who opposed them
And those whom they opposed
Accept the constitution of silence
And are folded in a single party.
Whatever we inherit from the fortunate
We have taken from the defeated
What they had to leave us—a symbol:
A symbol perfected in death.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
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9.6.09
Love of a country
There are three conditions which often look alikeYet differ completely, flourish in the same hedgerow:
Attachment to self and to things and to persons, detachment
From self and from things and from persons; and, growing between them, indifference
Which resembles the others as death resembles life,
Being between two lives—unflowering, between
The live and the dead nettle. This is the use of memory:
For liberation—not less of love but expanding
Of love beyond desire, and so liberation
From the future as well as the past.
Thus, love of a country
Begins as attachment to our own field of action
And comes to find that action of little importance
Though never indifferent. History may be servitude,
History may be freedom. See, now they vanish,
The faces and places, with the self which, as it could, loved them,
To become renewed, transfigured, in another pattern.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
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1.12.08
1640
Em 1640 já o império de Filipe de Espanha estava ameaçado de desmembramento, pelas revoltas da Catalunha e de Lisboa, apesar da guerra dos Trinta Anos se ainda ter prolongado até 1648. Portugal estava pobre e fraco, na verdade já fora vitima de duas "mortes", o suicidio do Verão de 1578, em Alcácer Quibir, que liquidou a nação armada, e o que derrotou a nação maritima no mar da Mancha, porque a Invencivel Armada era todo o nosso poder naval.E agora não teria de defrontar-se, como ao tempo de Aljubarrota, com a invasão de um exercito castelhano, mas com uma Espanha, cujo poder era acrescido pelos senhorios italianos e da Flandres, pelas riquezas das Indias Ocidentais, e pela força moral das vitorias militares sobre os luteranos.
Segundo a tese de Madrid, a Restauraçao portuguesa contou, sobretudo com o apoio francês, consequencia da situação internacional em plena guerra do Trinta Anos, mas também é facto que Portugal obteve um sucesso imediato com a adesão ao movimento restaurador das praças do Ultramar, excepçao feita a Ceuta. Sem essa adesao, a tentativa de entronizar o Duque de Bragança teria abortado.
Contudo, o mais importante para explicar a revolta terá sido a insurreição catalã, e a mobilização de 7.000 soldados portugueses, usados por Madrid às custas de Lisboa. Esta mobilização para uma guerra alheia, quando com os interesses portugueses sob ataque holandês no Ultramar, pondo em risco toda a actividade comercial da metropole, foi extermanete impopular.
A nobreza fixada no reino e o clero, sobretudo a Companhia de Jesus - não obstante a firmeza face a expansão protestante - foram os interpretes de um sentimento popular favoravel à Restauração. As adesoes rápidas à revolta em todo o reino, incluindo as terras de fronteira, dão a ideia de que os 40 conjurados de 1640 beneficiavam do apoio da nobreza rural, para além da debilidade do poder militar da imperial nas terras de Castela e Leão.
O poder português restaurado já nao se assemelhava ao da II dinastia, já nao correspondia ao lugar fronteiro da Cristandade, o dominio do Indico estava perdido, o da Africa quase limitado aos presidios da costa, e com o abandono do Oriente oferecia pouco. Na Europa, a exiguidade e pobreza do territorio, a falta de braços originada pelos empreendimentos ultramarinos, e as devastaçoes da guerra, reduziam Portugal a uma frente de diversao anti-espanhola para a França, e a uma eventual testa de ponte para a Ingalterra.
Regressávamos de algum modo, à posição das guerras fernandinas. Só o Brasil oferecia um vasto campo de expansão, mesmo assim, ameaçado pelas pretensoes francesas e holandesas, e pelas posiçoes espanholas na America do Sul.
A dura experiencia dos 27 anos de guerra seguintes, obrigou Portugal a uma revisao completa da sua colocação no tabuleiro estratégico mundial.
Mas o factor que se manteve constante, reforçando a identidade nacional, foi que aqui, o cio absorvente de Castela nunca logrou o que conseguiu nas outras naçoes hispanicas - galegos, bascos, catalães.
Em 1833 por vontade popular, em 1640 por determinação da nobreza, sempre o estado lusitano ressurgiu das crises; por muitos visitados, por muitos dominados, por muitos colonizados, mas ainda não fomos liquidados.
Com a ajuda de Pinharanda Gomes (Pensamento Portugues, Templo) e Soares Martinez (Historia Diplomatica de Portugal, Verbo)

