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La force des choses
15.4.11
 
Como diria Keynes
Os mercados podem continuar irracionais por muito mais tempo do que você e eu nos podemos manter solventes.

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12.4.11
 
A resposta 4


Portanto, num primeiro patamar de resposta à crise está a necessidade de consciencializar e criar modelos económicos e empresariais que favoreçam o comportamento ético – via formação e consciencialização dos gestores e via fiscalização das suas acções – é uma necessidade de sempre, que por algumas décadas foi relativizada face aos ganhos (mais ou menos lícitos) que a acção não responsável permitiu obter. Uma necessidade de sempre e global, onde Portugal não é excepção.


O segundo patamar de resposta situa-se ao nível da actuação específica sobre a economia de forma a potenciar o seu desenvolvimento de forma sustentada tirando partido das oportunidades que se abrem no período pós-crise que se começa a preparar.

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7.4.11
 
A resposta 3

Ainda no plano dos valores, situa-se a questão nuclear do empreendedorismo, frequentemente formulada de forma errónea. A capacidade de empreender, como capacidade de realização, é uma característica essencial de todas as sociedades capitalistas. Mas é sobretudo uma acção, e não uma declaração de vontade. É o resultado de um quadro cultural em que se nasce e cresce, e não o resultado de mera despesa pública, nem de programas técnico-burocráticos. Assim haverá que prestar atenção a três aspectos essenciais: - A transformação cultural de conjunto que se verifica nas sociedades europeias; - A valorização social dos empresários; - O estabelecimento de uma consciência de responsabilidade social, por parte dos empresários instalados

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4.4.11
 
A resposta 2

No plano dos valores situam-se questões muito repetidas e mediatizadas, mas raramente compreendidas nos seus elementos fundamentais. O tema da ética nas empresas, muito questionado na sequência dos sucessivos escândalos que a crise global veio trazer a publico, é na verdade uma questão constante nas sociedades humanas organizadas. E na economia coloca-se sob três perspectivas: nos comportamentos; nas estruturas; nos resultados.

A necessidade de consciencializar e criar modelos económicos e empresariais que favoreçam o comportamento ético – via formação e consciencialização dos gestores e via fiscalização das suas acções – é uma necessidade de sempre, que por algumas décadas foi relativizada face aos ganhos (mais ou menos lícitos) que a acção irresponsável permitiu obter. Uma necessidade de sempre e global, onde Portugal não é excepção.

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2.4.11
 
A resposta

Em primeiro lugar cumpre sublinhar que a resposta historicamente relevante a esta década de definhamento continuado e consistente, não está tanto na classe política detentora do poder formal, mas igualmente dependente de uma tomada de consciência da sociedade, dos cidadãos, em termos dos valores, atitudes e dos padrões de comportamento que pautam as acções quotidianas. Torna-se urgente propor de novo aos portugueses questões nucleares como a ideia de Pátria (como valor-charneira), o sentido de Estado e a responsabilidade de cidadania, como bases insubstituíveis da atitude face ao futuro.

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23.3.11
 
Querem um Plano de estabilidade e crescimento?

OK, digo-vos um. Então, é assim:
- Onde encontrarem facilitismo ponham exigência
- Onde encontrarem vulgaridade ponham excelência
- Onde encontrarem moleza ponham dureza
- Onde encontrarem golpada ponham seriedade
- Onde encontrarem videirismo ponham honra
- Onde encontrarem ignorância ponham conhecimento
- Onde encontrarem aldrabice ponham honestidade
- Onde encontrarem mandriice ponham trabalho

Para a construção do futuro, tudo se joga nos valores, nas atitudes, nos padrões de comportamento, cujos efeitos moldam depois toda a realidade económica.

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2.12.10
 
Ernâni Rodrigues Lopes (1942-2010)
A crise financeira na Europa pode vir a durar mais de uma década, afirma o economista Ernâni Lopes, fazendo uma comparação com a grande depressão norte-americana dos anos 30: Não creio que possa dar-se uma repetição sobreposta, mas podemos é pensar que vai haver um reajustamento completo do sistema económico europeu, no quadro da recomposição de poder e riqueza à escala mundial e isso não se faz em poucos anos.

Uma estratégia proposta a Portugal:
Reduzir o endividamento, aumentar a produtividade e as exportações, apostar em áreas estratégicas como o turismo, o hipercluster da economia do mar, no ambiente e em serviços de valor acrescentado é o caminho a seguir. Estreitar relações com mercados como Europa, Brasil e África é também uma questão importante.

Manifesto ao economista o apreço pelo que aprendi, ao homem a simpatia e o pesar pela sua partida.

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25.11.10
 
PROTESTO

Por tudo isto, mesmo em crise, o protesto sindical é uma manifestação de forças que equilibra e impede os desequilíbrios. Por tudo isto, a greve geral tem uma componente de resposta ao medo e à prepotência que, não contribuindo para “combater” a crise, impede que no seu decurso haja uma perda completa da dignidade pessoal de quem trabalha. Um trabalhador, que vê o seu rendimento drasticamente diminuído, pode até achar que não há outro remédio, – e muitos dos que vão fazer greve sabem que é assim, - mas nem por isso perde a vontade de protestar, bem pelo contrário. Não só entende que não teve “culpa”, como quer mostrar que ainda pode tomar uma atitude contra alguma coisa que pensa ser “injusta”.
Este post do Abrupto parece-me uma boa análise do significado da greve e da função do Sindicalismo. Para mais num tempo em que, os mesmos que destruíram milhões, vêm argumentar com eventuais os prejuízos provocados pela greve, em que, os mesmos que aceitam a irracionalidade dos "mercados" argumentam com a irracionalidade das greves. Não percebem que há sempre uma linha para lá da qual as pessoas partem a loiça, doa a quem doer, mesmo que aos próprios.

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24.11.10
 
Irlanda
A Irlanda não construiu pesadas infra-estruturas com os fundos comunitários, daquelas que endividam as gerações futuras, como aconteceu com as parcerias público-privadas (PPP) em Portugal. A Irlanda não enganou as instituições da União com estatísticas falsas, para contornar a dura disciplina do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), que é a bíblia da Zona Euro, como ocorreu com o anterior governo grego. Não consta que exista uma tradição de corrupção na administração pública nem que o mercado de trabalho seja "rígido", num país que se orgulhava da "flexibilidade" da sua legislação laboral.
É caso para perguntar quais serão os sermões que o FMI e o furtivo Fundo Europeu de Estabilização Financeira irão pregar ao antigo tigre celta? Todas as receitas neoliberais estão em prática já há muito, em Dublin. Não há país mais aberto ao investimento externo do que a Irlanda. O problema irlandês resume-se à brutal bancarrota de um sistema bancário totalmente permeável ao exterior, e por isso contaminado com os produtos tóxicos do “subprime” norte-americano.
A Irlanda vai ser resgatada para salvar os credores internacionais, para evitar os riscos de "contágio sistémico". A tragédia da Irlanda é que aqueles que estão no lugar de dar as lições são os que as deveriam receber. O povo irlandês vai pagar a irresponsabilidade política dos que aboliram todas as regulações prudenciais, e a ganância de uma minoria inimputável para quem a desmesura é o único limite. (Viriato Soromenho Marques in DN 24-11-10)

Não acompanho certos pormenores da exposição. Não aceito a demonização do “Capitalismo” como fonte do mal (ainda por cima sem se sustentar alternativa). Ao próprio termo, desconsidero-o, na minha pequena opinião apenas existe a Economia, como forma de gestão de recursos, que são sempre escassos, com maior ou menor intervenção do Estado. O resto, são preconceitos. Não aceito o termo “neoliberal”, com água no bico, pois o Liberalismo, neste caso económico, nada tem de "neo", data da crítica ao Mercantilismo do séc. XVI. Leia-se menos Marx (se é que o leram) e mais Hayek. Também não compro essa mentira vendida pelos governos, de que o Estado é capaz de resolver todos os problemas humanos. Não é! Na verdade, penso que a causa das crises económicas, como a do “subprime”, reside muito mais nas formas desonestas de ganhar dinheiro (os magos das finanças), do que na aspiração legítima da livre iniciativa, a única capaz de criar riqueza, que se possa redistribuir.
Mas isto são pormenores, dentro do contexto de crise. No essencial, acompanho a exposição do Prof. Soromenho Marques quanto à Irlanda. O único pecado deles, ao contrário de outros, não foi um governo liberal, foi um sector financeiro, privado, que insensatamente investiu tudo na grande falácia do “subprime”. De facto, pode perguntar-se aos gurus da economia: e agora, que mais?

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6.11.10
 
É a iniciativa
Fazendo eco daquilo que muitos consideramos ser o cerne da questão económica portuguesa, um socialista que prezo (e gostaria de ver suceder a José Sócrates) publicou o seguinte texto na edição do Expresso de 2 de Outubro :
O nosso principal problema é, insisto, o fraco crescimento da nossa economia. Segundo dados da Comissão Europeia, o nosso PIB potencial (que mede o potencial da capacidade produtiva do país a médio e longo prazo) diminuiu na última década para cerca de 1%. Um valor muito baixo. Ora, sem um robusto crescimento económico não há riqueza, nem criação de empregos ao nível do que necessitamos.
A nossa principal prioridade só pode ser uma: o crescimento económico. O país não aguenta mais uma década de fraco crescimento. Nem é justo que as novas gerações possam continuar a ser sobrecarregadas com mais encargos decorrentes dos estilos de vida actuais. Para a concretização desta prioridade devem ser mobilizadas as energias e a inteligência dos portugueses. É esta a herança que temos a obrigação de transmitir às futuras gerações.

Apesar do investimento ser agora impossível (e devo dizer que discordei dos não reprodutivos investimentos socráticos) e da moda obrigatória ser a da poupança “salazarenga”, pedi a um ilustre defunto John Maynard Keynes (um teórico “capitalista”, tão acarinhado pela esquerda), que desse resposta ao deputado socialista:
É a iniciativa empresarial que constrói e melhora os haveres do mundo. Se a iniciativa for livre, a riqueza acumular-se-à, aconteça o que acontecer à poupança. E se a iniciativa estiver adormecida, a riqueza diminui independentemente da poupança.

Quando os pessimistas, sejam os marxistas que agoiram ao “capitalismo” o destino de uma depressão catastrófica, sejam os ecologistas que ameaçam as economias de mercado (como se as “outras”, tivessem sido ecológica) com o sufoco nos seus próprios resíduos, ou sejam até do outro lado da barricada, os liberais temendo que o planeamento estatal nos leve para caminhos de servidão, todos eles esquecem sempre que o essencial da empresa é o espírito de iniciativa.
Num país administrativista, educado nos encostos ao “rei”, em que toda a iniciativa é afogada em regras e mais regras que ninguém cumpre, e no medo da desprotecção e dos “neo-liberalismos”, valia a pena pensar nisto. O Simplex de Sócrates, mesmo sem ter o sucesso almejado, vai na direcção certa, mas é preciso muito mais, é a própria cultura, a cultura da inveja ao sucesso e do culto pela proibição (que depois também fomenta os “arranjinhos”) que tem de mudar. Penso eu de que…

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11.3.09
 
A magia do Mercado


A crise financeira bem explicada

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5.3.09
 
Perante Perez Metello, olhando-o na cara, o Avelino fala ao Cardeal. Lança pela boca fora algo como isto: porque há quem diga, que o buraco é tão grande, que só será possível de resolver pela inflação.
Assustou-me, o gajo. De facto, não sabendo ainda, até onde vai o poço sem fundo financeiro, particularmente na América e na Europa, é difícil prever soluções. Os estados, primeiro garantem, depois metem dinheiro. Depois metem mais e criam dívida; chutamos o buraco para o futuro, para os descendentes… mas haverá também o momento, de pôr a máquina que faz moeda a funcionar.
É sabido que, aumentar a massa monetária, para pagar salários por exemplo, a consequência é inflação... entre a deflação e a inflação a minha angústia balança.

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4.3.09
 
No país dos matulões
Há dias, em Berlim, desprezando o que é desprezável, os seis poderosos reuniram o directório europeu (faz falta o Tratado de Lisboa) para preparar a próxima do que dá pela etiqueta de G20. Sarkozy ajudou à festa, com a sugestão nacional de condicionar ajudas à aplicação no hexágono.
Críticas azedas levaram a nova reunião, agora a 27 (último fim-de-semana) para
apaziguar melindres. Foi imediatamente precedida por uma outra, só de Leste, preparando a posição privada de 9 dos 27. Temos uma divisão clara entre poente e levante, entre ricos e pobres; e temos um directório dominado pelo tandem França/Alemanha (um bocado tenso, por sinal).

A redução do dinheiro, parece estar a gerar a desagregação do tecido produtivo. A redução da economia gera desemprego; o desemprego reduz os mercados, o que vai reduzir ainda mais a economia. A desagregação da economia leva à desagregação social, numa depressiva dinâmica de buraco negro.
Agrava-se a crise global, em retro-alimentação, com ciclos acelerados; piorando todos os dias, agora a leste em estados da União, agora a ocidente em países defendidos pelo euro, aquilo que fica em jogo é resvalar para o directório, é a lei do mais forte, com proteccionismos, a industria francesa para os franceses, a inglesa para os ingleses, etc.; e com desequilíbrios nas dívidas e taxas de juro entre estados da União, a breve prazo, o próprio euro ficará em causa.
Aquilo que, também está em causa, é a solidariedade dentro da União, isto é, a própria Europa. Para um país pequeno e endividado, não vemos alternativa a aceitar os tratados e nada para além dos tratados. O Tratado de Lisboa em vigor, apesar dos defeitos, seria hoje uma mais valia.

Perspectiva-se assim o teste decisivo da União:
- Proteccionismo ou Solidariedade

- Cada um por si, aceitando que egoísmos nacionais, destruam o mercado interno e arrisquem a moeda única, ou tratar todos os europeus como cidadãos, conjugando esforços, utilizando recursos dos que podem em socorro dos mais frágeis, criando os instrumentos.
Em empréstimos ao Leste parecem estar em jogo mais de mil milhões de euros (algum do BCP, senhor José Sócrates); o efeito do colapso financeiro, económico, social, mete medo aos ricos. Desta vez, ou lucro é de todos, ou adeus Europa.
Mas onde está a Comissão do José Manuel?

Com um orçamento europeu ridículo, onde está a resposta comum?
Onde a hipótese imaginada de títulos de divida pública europeus?
E a hipótese imaginária de um fundo para auxiliar os estados insolventes?

A única entidade independente que funciona na UE, contra vontade dos grandes, diga-se, é o Banco Central Europeu. Apostar em regras comuns aceites - o melhor que existe é o Tratado de Lisboa - na dimensão institucional, e apostar na integração na moeda única nas dimensões económica e financeira, parece tornar-se imperioso.
Será também, provável, porque a alternativa é cara, mesmo para os poderosos. Por isso, nesta desgraça, estamos optimistas. A necessidade aguça os miolos... e a esperança. Em ultima analise, a questão é politica. Por isso José Sócrates devia estar em Bruxelas, no domingo passado, e nos próximos.

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26.2.09
 
Perplexidades íntimas sobre a batota
Propriedade privada é aquela de que nós privamos os outros
(mais ou menos, o Agostinho da Silva in Textos Pedagógicos, vol. II, Âncora 2000, pág.102)

Na economia de mercado é assim… deve ou não, o estado, intervir na economia?
Claro que não. Enquando estivermos a ganhar, tá-se bem…
Sim, se estivermos a perder. Sobretudo se estivermos falidos.

No caso do banco privado é assim: somos investidores ou somos clientes?
Somos investidores se o negócio der, somos clientes se o negócio não der.


Atenção. Estou só a experimentar a cabeça...

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24.2.09
 
Do destroço

...tal como nós, quando o socialismo real causou em todos os lados os mesmos efeitos, pensámos que o mal estava nos homens maus e também no socialismo real, uma exigência de rigor devia levar os simpatizantes do capitalismo a admitir que o mau cheiro da panela destapada não vem só dos maus intérpretes da economia de mercado. (Luís in A Natureza do Mal)

Eu, que nunca pensei que os selvagens fossem naturalmente bons, li. Eu simpatizo com a liberdade em geral, e a de todos os bichos em particular, se é que isso implica "ser simpatizante do capitalismo". Eu também nunca pensei que os concertos ideológicos - digam comunismo ou digam mercado - nos salvassem da bestialidade ancestral. Mas a náusea, está de facto, tão activa, que com facilidade concedo: aceito que o mau cheiro não é específico de um ponto cardeal, o mau cheiro é mesmo intrínseco à coisa.

Quando hoje, aqui, há gajos que condenados, não pagam mais de 5.000 euros, por quererem putrefazer vereadores municipais. Quando aqui, hoje, há lixo a caducar - como se o deixasse de ser - ao fim de meia dúzia de anos, e os tribunais demoram o dobro disso a almejar uma condenação. Quando o único deputado, a tentar aqui algo de sério, contra o que publicamente fede, é exportado para lá do sol-posto e o que pedia vai para o caixote.
Talvez esteja na altura de voltar ao princípio. Começar por distinguir o que é mal do que é bem. Não sei. Saber que coisa queremos, que alma se tem…

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23.2.09
 
Quando o dinheiro parou
Há quem considere que, pelo efeito perturbador exercido sobre as pessoas e, consequentemente, sobre o seu comportamento, a Grande Depressão é considerada como o acontecimento do século (…) Nenhuma das duas guerras teve efeito semelhante sobre tanta gente (…) Poucos dos que sobreviveram à Grande Depressão ficaram indemnes perante a experiencia. Em contraste com as guerras, deu-se muito pouca atenção aos factores que converteram as desconfortáveis e dolorosas crises do século passado nesta profunda e duradoura tragédia.
Para os marxistas tratou-se, simplesmente, de outra manifestação da tendência fatídica do capitalismo; foi pior que as predecessoras, porque estava destinada a piorar até ao derradeiro colapso apocalíptico.
Para os eruditos ortodoxos da época foi outra queda no ciclo económico, queda que foi, muito possivelmente, prolongada pelos esforços mal conduzidos dos governos para lhe pôr termo.
Nem o súbito colapso do mercado de acções, nem a especulação que a precedeu têm sido considerados como causa decisiva. O mercado foi uma resposta a forças mais profundas e mais fundamentais; não foi em si mesmo a causa da mudança. (…)
A vida económica, como sempre, é a matriz em que o resultado se converte na causa e a causa no resultado. (…)
Em 1932, a Reserva Federal dominou finalmente o seu receio da inflação e começou as suas operações de mercado aberto. Compravam-se títulos; de acordo com isso o dinheiro afluía aos bancos. Era demasiado tarde.
Os banqueiros assustados retinham o dinheiro assim recebido como mais uma segurança contra o dia em que os seus depositantes viessem. Em parte por causa deste receio, chegariam em breve a manter reservas muito para além das suas necessidades – e este estado de coisas manter-se-ia durante muitos dos anos subsequentes.
GALBRAITH; John Kenneth, Money, 1975


Pouco iluminado estou, sobre o desenrolar do drama económico actual.
O texto de Galbraith aborda semelhanças, mas contém também diferenças, relativamente a 1929.
Nas semelhanças creio poder incluir sem grande margem de erro, a marca indelével que esta crise vai deixar na geração actual; também a avaliação dos factos pelo marxismo ressuscitado se assemelha - já os ortodoxos, hoje chamados neo-liberais, estão caladinhos, talvez a ver se percebem; igual também a importancia do dinheiro, como seiva vital da economia, e o efeito destruidor do colapso dos mercados de capitais – mas desta vez, diversamente, derivando do colapso do mercado imobiliário; semelhante ainda a reacção dos bancos assustados, retendo o dinheiro recebido (ou avalizado) dos estados – mas desta vez, diferente foi a reacção dos governos, muito mais rápida, injectando dinheiro, evitando falências e agindo directamente nos mercados.
Creio que mais duas situações contextualizam a diferença.
A maior responsabilidade da grande crise económica do século XXI recai, não nos capitalistas no sentido clássico, mas nos gestores. Foi essa corporação do novo século que, manipulando uma economia virtual, enriqueceu, dando a si mesma prémios pornográficos - dou aqui a mão à palmatória a Mário Soares, a quem oiço de há muito criticar o novo capitalismo das alavancagens financeiras;
A ligação e integração das economias do mundo nunca foi tão completa – o que impede reacções de fechamento ao exterior, como sucedia antes – e isso é completamente novo: ninguém se pode salvar sozinho.
Mantém-se, contudo, uma semelhança fulcral: o peso enorme da América do Norte na economia mundial. Em 1929 foi a dependência da sua força que arrastou a Europa para o desastre; em 2008, tive alguma esperança que os países emergentes, China, Índia, etc. pudessem compensar o afundanço com a sua vitalidade. Ainda não será assim, desta vez. Creio já ter percebido, que tal como antes, enquanto os Estados Unidos não recomeçarem a crescer, o mundo vai estar parado; ainda são eles a locomotiva, ainda é lá que está o factor crítico.

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29.9.08
 
A luva negra
A Câmara dos Representantes chumbou esta tarde o plano da administração Bush de ajuda ao sistema financeiro (…) A maioria dos Republicanos votou contra, ao contrário dos democratas.

Wall Street teve um dos maiores afundanços da sua história - parece que superando uma famosa terça feira negra, em termos pontuais - com rejeição do plano de salvamento da Banca.

Em 1776, creio, Adam Smith escreveu a sua famosa argumentação de que cada indivíduo que “pretenda apenas a sua própria segurança, apenas o seu próprio ganho, é levado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte das suas intenções. Na prossecução do seu próprio interesse, ele promove frequentemente o da sociedade de forma mais efectiva do que quando ele realmente tem intenção de o promover”.
Esta fé inabalável na invisível providência, afasta fanáticamente toda a intervenção estatal, por melhor intencionada.

Nesse aspecto, no fanatismo, no fazer o mal para conseguir o bem, não me parece muito diferente dos que fanáticamente pensavam que a luta de classes era o motor da História, ou dos que fanáticamente pensavam em criar um super homem, para pastorear as gentes, ou doutros, que acreditam poder alcançar o Céu, aniquilando todos os que não encaixam nas ideias estreitas, mas para eles sagradas.
São todos caridosamente iguais: querem que a gente morra para nosso próprio bem. Claro que, sem intervenção, a prazo o mercado recupera… o problema é que, no longo prazo estaremos mortos, como dizia o
outro.
Hoje, até a mim, que nunca acreditei em nenhum sistema económico, para além daquele que vive do mercado - o resto considero desvios e fantasias, mais ou menos aberrantes – até a mim repito, me vieram palavras velhas de Abril (do Zeca?): Não viram, não viram por aí? Os senhores da luva negra que só vivem para si.

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22.7.08
 
O Bezerro de Ouro
Ver no dinheiro o excremento do Diabo é o erro arcaico do Cristianismo católico, retomado pelos idealistas do marxismo. Ambos pretendem iludir-se e ignorar que o dinheiro faz parte do mito humano e da sua cultura.
Foi primeiro, o veículo, o selo, a senha que permitiu aos irmãos conjurados conhecerem-se entre si, associarem-se e guardarem segredo sobre a conspiração que os levou a matar o pai.
Depois foi a pátria dos sem-pátria.
Mais tarde, a riqueza das nações.
E, com o tempo, transformou-se num excitante.

O dinheiro é uma relação cultural primordial e indeclinável e não apenas uma relação inorgânica oposta à Natureza e possível de suprimir por um acto de pura vontade.
O dinheiro é, finalmente, a nostalgia da idade do ouro.
É, talvez, o seu aspecto mais melancólico.
Mas – esse é o problema – o dinheiro não compra a imortalidade.


Victor Cunha Rego, DN/ Os dias de amanhã 1993-99

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1.5.08
 
Nothing like a free lunch

The only means of inducing a man to work more and better is to offer him a higher reward. It is vain to bait him with the joy of labor.

Ludwig Von Mises, Human Action, p.589 (image Jack Silver)

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20.4.08
 
Da exploração

Não estando com tempo para uma série de posts sobre Economia Política – que até me ajudava a actualizar as ideias – não quero deixar de dedicar ao caro Jrd, um esboço do que penso nesse domínio. E encaixado que estou numa ideologia (coisa fora de moda) não lhe será difícil descortinar-me as ideias. Devo contudo dizer, que após o famoso 25, fui à Democracia Cristã e até sócio do CDS, de onde me livrei após a chegada do populismo. Mas nunca vi grande diferença entre esta e a Social-democracia:
- Ambas rejeitam os sistemas políticos totalitários e transpersonalistas, à direita, os fascismos, como à esquerda, os comunismos;
- Ambas se distanciam dos sistemas económicos radicais, à direita, o individualismo liberal assente só no lucro, à esquerda, o socialismo marxista que assenta no colectivismo;
- Ambas se batem pela concretização de uma sociedade livre, justa, igualitária e humanista (todos termos que requerem, claro, aturada análise e mínima precisão:)

Daí que, hoje, confessando-me cristão e social-democrata - apesar de liberal e individualista, por temperamento - me atreva a apontar um trecho de uma velha encíclica, como princípio da questão
“onde é que o explorador e os explorados se “encontram”…
“Não dás da tua fortuna – assim afirma Santo Ambrósio – ao seres generoso para com o pobre, tu dás aquilo que lhe pertence. Porque aquilo que te atribuis a ti foi dado em comum para uso de todos. A Terra foi dada a todos e não apenas aos ricos” (…) Ninguém tem o direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, o direito de propriedade nunca deve exceder-se em detrimento do Bem Comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos. Surgindo algum conflito entre os direitos privados adquiridos e as exigências comunitárias primordiais, é ao poder público que pertence resolvê-lo, com a participação activa das pessoas e dos grupos sociais. (Enc. Populorum Progressio, 23)

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