Reflexão pós eleitoral
Dizia em tempos um velho, que a democracia (representativa, e não a “directa”, ou “verdadeira”, ou o que mais inventem) é a pior forma de governo, mas só se exceptuarmos todas as outras que, de tempos a tempos, se têm tentado.Aos que, pelo resultado eleitoral de ontem, exibem uma enorme aversão, perguntaria: porque não vos conforta uma clara vontade maioritária? é só quando dá jeito?...
No entanto, há algo que até os adversários deste sistema político – e todos o são, quando não respeitam, quando desvalorizam a vontade expressa da maioria – terão de reconhecer: esta é a única forma não violenta de garantir mudança! Alguns nunca mais sairiam de cena, se não fosse assim.
Apesar das dúvidas existenciais das elites, os eleitores portugueses já mostraram que não são parvos. A leitura marxista da sociedade é minoritária (PCP mais BE sempre abaixo dos 20%), e a maioria do eleitorado PS (apesar da conversa “de esquerda”) aceita a economia de mercado, porque é aí que radica a verdadeira diferença entre esquerda e direita, tal como em Portugal é percebida. Contudo, os eleitores portugueses são generosos e prudentes. Generosos, porque num sistema feito para não gerar maiorias absolutas, até as têm concedido. Prudentes, porque existe uma diáfana sensatez nas suas decisões: a recusa da visão marxista em 1976, que deu força a Soares (opção pela Europa), e a Sá Carneiro em 79; o castigo do PS em 83 (PRD) e 87 (Cavaco); o castigo final do cavaquismo em 99 (Guterres); o castigo do esvaído Guterrismo em 2002; o castigo do PSD de Durão e Santana em 2005 (Sócrates); … e agora!
Há alternância política (dizer que é tudo o mesmo, não passa de miopia de maus perdedor), há escolhas das quais os verdadeiros responsáveis, para o bem e para o mal, são os eleitores; e os meus amigos não se revêem neste país? Para onde querem ir? Os BRIC emergentes? A bruta Alemanha ou a estafada América? São estes mais à esquerda? Ou Cuba (já nem falando no Norte da Coreia)? Afinal estamos a falar de quê?... Não será da não-aceitação das escolhas alheias, da expressão de um preconceito pouco democrático, da mania de que a “razão” (a nossa) devia vir na maioria? É que não vem! Da maioria não vem a “nossa” verdade, vem sim, e não é pouco, a legitimidade do poder político.
Legitimidade! … é isso a Democracia, e ou se aceita ou não.
A resposta 4
Portanto, num primeiro patamar de resposta à crise está a necessidade de consciencializar e criar modelos económicos e empresariais que favoreçam o comportamento ético – via formação e consciencialização dos gestores e via fiscalização das suas acções – é uma necessidade de sempre, que por algumas décadas foi relativizada face aos ganhos (mais ou menos lícitos) que a acção não responsável permitiu obter. Uma necessidade de sempre e global, onde Portugal não é excepção.
O segundo patamar de resposta situa-se ao nível da actuação específica sobre a economia de forma a potenciar o seu desenvolvimento de forma sustentada tirando partido das oportunidades que se abrem no período pós-crise que se começa a preparar.
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Da avaliação de Passos Coelho
Há uma reacção a Passos Coelho que me indigna. Não acreditam nele com o argumento de que “eles são todos iguais”. Recordo-me que, quando da vitória de António Guterres sobre os Cavaquistas em 1995, não eram todos iguais. Guterres era a salvação, qual cavaleiro imaculado – ainda hoje tem de se gramar o Vangelis na Conquista do Paraíso. Depois veio o pântano – justiça lhe seja feita, Guterres percebeu, demitiu-se. Mas com o medo da “direita”; de novo “eles ficaram todos iguais”. Depois, com a emigração de Durão Barroso, o pântano seguinte favoreceu José Sócrates; e de novo levámos com Vangelis, o Paraíso e a esperança… Só que, à semelhança de Guterres, o segundo mandato de Sócrates foi calamitoso, com a agravante do carácter. Para bem pior. Este, nem se engana, nem desiste. Temos então eleições e de novo vem a arenga do “eles são todos iguais”. Sim, os homens são todos iguais, nenhum é santo, mas acontece que Passos Coelho tem direito ao benefício da dúvida. E Sócrates não. O Partido Socialista, José Sócrates incluído, é governo há muito tempo. Passos Coelho não.
Esta mania da “esquerda boazinha” quando ganha, e do “eles são todos iguais” quando a dita perde, é para mim um complexo dos idos de Abril. Um complexo profundo que diz que o mundo se divide em duas classes, os pobres que são todos trabalhadores e bons, e os ricos que são todos exploradores e maus; um complexo que conjuga modelos económicos do século XIX – a luta imperiosa contra o “capital”, a visão conflituante da empresa – com mitos keynesianos à mistura; que faz do endividamento e do investimento público a panaceia que cura todos os males, mesmo que males maiores sejam evidentes, como a expropriação pelos impostos sobre quem trabalha, e o crescente desemprego. Nesta cultura antiliberal, anticoncorrencial, o estado a tudo provê, os empresários são inimigos, e “eles”, os políticos são todos iguais. Mesmo quando nunca governaram. Porque são da classe má. Até o Nobre que há pouco era bom (meio soarista, mas bom) passa agora a mau quando se ergue pelo lado errado. Não temos direito a opinião, não há respeito pela escolha, só um lado é bom e o outro é sempre mal. Se um da direita mente é porque é mentiroso, claro. Se Sócrates mente, as escutas são ilegais, alguém bufou, etc. Tudo é importante, menos o facto de um primeiro-ministro ser mentiroso… até porque mentir, todos mentem não é? Por isso, agora que a “esquerda” socialista deu o berro, “eles, ficaram todos iguais”. Outra vez… E meus amigos, não temos vergonha do preconceito, que nos torna tão injustos? Não existe maior dogmatismo do que o daqueles que se dizem de “esquerda”, quando presos a modelos económicos arcaicos e retóricas ideológicas hoje irrealistas. Por isso é que não sou de esquerda.
A resposta 3
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A resposta 2
No plano dos valores situam-se questões muito repetidas e mediatizadas, mas raramente compreendidas nos seus elementos fundamentais. O tema da ética nas empresas, muito questionado na sequência dos sucessivos escândalos que a crise global veio trazer a publico, é na verdade uma questão constante nas sociedades humanas organizadas. E na economia coloca-se sob três perspectivas: nos comportamentos; nas estruturas; nos resultados.
A necessidade de consciencializar e criar modelos económicos e empresariais que favoreçam o comportamento ético – via formação e consciencialização dos gestores e via fiscalização das suas acções – é uma necessidade de sempre, que por algumas décadas foi relativizada face aos ganhos (mais ou menos lícitos) que a acção irresponsável permitiu obter. Uma necessidade de sempre e global, onde Portugal não é excepção.
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A resposta
Em primeiro lugar cumpre sublinhar que a resposta historicamente relevante a esta década de definhamento continuado e consistente, não está tanto na classe política detentora do poder formal, mas igualmente dependente de uma tomada de consciência da sociedade, dos cidadãos, em termos dos valores, atitudes e dos padrões de comportamento que pautam as acções quotidianas. Torna-se urgente propor de novo aos portugueses questões nucleares como a ideia de Pátria (como valor-charneira), o sentido de Estado e a responsabilidade de cidadania, como bases insubstituíveis da atitude face ao futuro.
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Querem um Plano de estabilidade e crescimento?
- Onde encontrarem facilitismo ponham exigência
- Onde encontrarem vulgaridade ponham excelência
- Onde encontrarem moleza ponham dureza
- Onde encontrarem golpada ponham seriedade
- Onde encontrarem videirismo ponham honra
- Onde encontrarem ignorância ponham conhecimento
- Onde encontrarem aldrabice ponham honestidade
- Onde encontrarem mandriice ponham trabalho
Para a construção do futuro, tudo se joga nos valores, nas atitudes, nos padrões de comportamento, cujos efeitos moldam depois toda a realidade económica.
Esta peça de teatro acaba aqui
Ernâni Rodrigues Lopes (1942-2010)
Uma estratégia proposta a Portugal:
Reduzir o endividamento, aumentar a produtividade e as exportações, apostar em áreas estratégicas como o turismo, o hipercluster da economia do mar, no ambiente e em serviços de valor acrescentado é o caminho a seguir. Estreitar relações com mercados como Europa, Brasil e África é também uma questão importante.
Manifesto ao economista o apreço pelo que aprendi, ao homem a simpatia e o pesar pela sua partida.
Expresso no Expresso 2
Ou seja, se as receitas extra e a despesa a menos acordada com o PSD tivessem sido escrupulosamente cumpridas não teriam sido necessárias novas medidas este ano. Mas foram, e de que maneira. Além da lotaria da PT (que traz consigo responsabilidades futuras muito complexas), foi travado todo (todo!) o investimento dos próximos três meses e vários subsídios e apoios. Se o Estado precisa deste dinheiro é porque está a gastar muito mais do que devia. (…) Agora chegou a conta. Com ela tem que vir a verdade, toda a verdade, e um plano futuro com garantias. (Ricardo Costa)
Expresso no Expresso
Não discuto a coragem de um político que entrou em fase de negação e, depois de nos ter feito perder, pelo menos um ano – este que decorreu desde as ultimas eleições – aplica receitas das quais se ria, quando já se sabia que eram indispensáveis. (Henrique Monteiro)
Para-teoria 7: o caroço
Whatever we inherit from the fortunateWe have taken from the defeated…
(T. S. Elliot)
A aversão ao Moderno, é a quarta característica que julgo residir na identidade portuguesa; é recente, surgiu no início do século XIX, e traduz o conflito implícito nos anteriores parâmetros, a tensão entre o “antigo” e as novidades “exóticas” vindas de fora: a modernidade imposta a uma população antiga. Apesar de adaptações mútuas, em revoluções, guerras e regenerações, penso que a luta entre o “atraso” e o “progresso” permanece nas mentes. Entretanto o que é antigo vai-se metamorfoseando, mas o “caroço” de que falava Valente, esse permanece no fundo. O povo português não nunca assume, verdadeiramente, um espírito racional moderno. E desde Garrett a Pessoa que a poesia persiste, convicta, nessa celebração rústica do “bom senso”, do “haja quem mande” e do “graças a Deus”. Diz Pessoa: Que importa o areal e a morte e a desventura, Se com Deus me guardei? É O que me sonhei que eterno dura, É esse que regressarei.
Serão estes quatro factores resumidos, que dão corpo ao Mito de Portugal, que em grande parte correspondem aos valores “perenes” da direita, penso eu. Mas não nos iludamos, são também da esquerda, excepção feita na aversão à modernidade (explícita, porque até na esquerda julgo desvendar a veneração pelo antigo). Este é o país que se julgou “o mais liberal da Europa” (1820), “o mais avançado da Europa” (1910) e o “mais socialista da Europa” (1975); E nos intervalos uma “ilha de paz no conflito universal” (1801 a 1807 e 1939 a 1945), “o primeiro reduto contra a peste revolucionária” (até 1820), o “paraíso da concórdia e progresso” (de 1851 a 1864 e de 1871 a 1890), o “mais lúcido defensor de ocidente” (de 1961 a 1974).
Seria bom que o antigo e o novo que conflituam na nossa intimidade, se conjugassem finalmente (novamente?) para benefício mútuo. Porque também nas nossas elites, por mais polpa que apresentem (os estrangeirismos do costume), o “caroço” é o mesmo… há um pragmatismo lusitano, que sem assumir completamente os tempos novos, é capaz de extraordinárias adaptações para resolver o presente.
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Para-teoria 6: Quinto Império e o Messias Sebástico


A espécie de ideologia religiosa que dá identidade aos portugueses parece-me expressar-se em características antigas e constantes, entre as quais o que antes designei por “Fado Oscilante”, e em segundo lugar, o que designo pela “religião” do Quinto Império prometido: uma crença complexa na escolha transcendente de Portugal. Esta dimensão mítica tem raízes na lenda alcobacense de Ourique, no Joaquimismo do Espírito Santo, e plasmou-se no próprio símbolo nacional (as quinas com chagas). É a visão de um passado glorioso – mas efémero e oculto – prestes a consumar-se novamente no futuro. O seu carácter religioso-romântico reage furiosamente à novidade estrangeira. Tal como o milagre de Ourique, as profecias do Bandarra ou o Quinto Império de Vieira, julgo ver o mito também nas aparições de Fátima, durante a I República. Está lá tudo, a escolha divina de Portugal num momento crucial, o segredo por revelar (nunca se sabe, é brumoso). Como diz Pulido Valente, não se conhece o mecanismo pelo qual se passou em poucos dias de umas dezenas de pessoas para 100.000, mas é nisso que reside o verdadeiro segredo de Fátima. A Virgem andou positivamente a dar um baile às autoridades republicanas. A Igreja Católica, acorreu, solicita, a cavalgar a onda, antes que lhe escapasse das mãos. Mas a questão de fundo é que, o fenómeno despoletado ganhou uma legitimidade sobrenatural, e estabeleceu-se como um fenómeno político, apesar do ateísmo oficial. A fé introduzia-se de novo (de facto, nunca terá estado de fora) com toda a força no domínio da política.
À terceira característica, que julgo ver, chamar-lhe-ei O Messias Sebástico: é claramente a crença (e a espera) no surgimento de alguém que trate de nós – um Sebastião imaginário, que nos ressuscite a antiga idade do Ouro, no esplendor da lenda (e nos livre da política…). Cito Pulido Valente, mais uma vez: “Dia a dia, ano a ano, século a século, a nação, persuadida da sua íntima grandeza, esperou o taumaturgo que a fizesse ressuscitar num sublime esplendor. E taumaturgos não lhe faltaram: Pombal, Linhares, Fernandes Tomás, Miguel, Pedro, Costa Cabral, Fontes, João Franco, Carlos, Afonso Costa, Sidónio Pães, Salazar…” E estes últimos, que temos vivido, acrescente-se.
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Para-teoria 5: um fado oscilante
Numa comunidade, existe um núcleo de ideias comum mais forte do que as diferenças – não sendo assim, a comunidade tende a desagregar-se. Em Portugal, essa espécie de ideologia religiosa (o “caroço”) parece-me ter expressão em três ou quatro características antigas, constantes, das quais destacaria em primeiro lugar o que designo por um Fado Oscilante, e que José Gil referiu (Portugal Hoje – o medo de existir) como um sentimento de sempre, uma imagem de si sempre oscilante entre o não sou nada e o sou um génio (os dois motes da imagem de si da “Tabacaria” de Fernando Pessoa) ambas desrealizantes e imaginárias. Mas, talvez este sentir traduza, igualmente, uma consciência difusa da fina película que separa o sucesso da desgraça.
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Para-teoria 4 - Estado Novo
Diz-nos Rui Ramos em “A Segunda Fundação”: a ditadura militar de 1926 não derrubou uma “democracia” no sentido actualmente corrente do termo. Destruiu o império daqueles que se consideravam os únicos “democratas” e que, na pratica, se traduzia no monopólio do Estado por um partido politico, o Partido Republicano Português, e num tipo de governo que os seus críticos não hesitavam em classificar como “um governo de ditadores”.O PRP que representava a maioria da opinião republicana, conquistou o poder em Portugal em 1910 e, sob a alcunha de “partido democrático” não consentiu que mais ninguém lá chegasse, a não ser pela força (1917 Sidónio; 1926 Carmona). O PRP não estava no governo porque vencia as eleições, mas vencia as eleições porque se sabia que em caso nenhum admitia sair do governo. A decisão do PRP em permanecer no poder contra tudo e contra todos – ou, como pitorescamente proclamou Afonso Costa em 1914, em “defender o povo, mesmo contra a vontade do próprio povo” – ficou provada, vezes sem conta antes de 1926.
Por detrás do confronto entre o Reviralho e o Republicanismo, não está a vontade popular, está sim a profunda guerra cultural aberta em Portugal pela conquista do Estado pelo PRP em 1910. Um abismo entre o poder e o povo.
Quando a Republica entra em falência, e o exército (Carmona) entrega o poder a Salazar, com o apoio de republicanos moderados (e igualmente de monárquicos), na realidade é à Igreja que o está a entregar. O “Reviralho” representou no fundo, a vingança dos que sofreram o terror, e Salazar não substituiu uma democracia por uma ditadura, de facto apenas trocou uma ditadura por outra, à época – lembremos a ascensão de Mussolini e as ideias em voga – mais aceitável.
A emergência do Estado Novo não resultou da simples decadência e queda da Republica, mas da transformação a que as suas elites tentaram sujeitá-la, transformação que passou pelo aniquilamento do velho PRP como partido dominante, num processo que se desenvolveu tanto à direita como à esquerda. O que aconteceu depois, a instauração do “Estado nacional autoritário” de Salazar, resultou desse confronto.
Para além de tudo isto, os portugueses nunca gostaram da Política. A Monarquia deixara a Politica de rastos. Mas a Republica só veio agravar o desprestígio. Tinha o apoio de uma ínfima parte dos portugueses, não permitiu na prática mais do que um partido, viveu numa inconcebível instabilidade e durou, enquanto durou, pelo terror. Até as ténues tradições de tolerância do constitucionalismo foram destruídas pelos bandos de caceteiros que se auto intitulavam “povo”. Daí a ideia de que, para salvar a Pátria, era necessário suprimir a politica. Foi esse desastre que induziu Salazar. Além disso, o republicanismo nunca desdenhou usar os mitos para se “sacralizar” com rituais e devoções, que funcionavam como uma “religião” (as comemorações camonianas e pombalinas, por exemplo). A “religião laica” republicana só teve paralelo – não por acaso, creio – na sua grande rival, a Igreja Católica. Assim, como antes fizera a Monarquia, como antes fizera a Republica, Salazar apoiou-se no mito da Gloria Pátria, contra a evidência da penúria. A Política morreu, e o 25 de Abril irá ressuscitá-la… mas como lembrou Pulido Valente, não a reabilitou.
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Para-teoria 3 - República
Diz-nos Pulido Valente em “O Poder e o Povo”: o conjunto de crenças e ideias que o militante médio geralmente partilhava tornou possível a transformação do pequeno partido incoerente dos anos 80 na força poderosa de 1910. Os republicanos começaram por se considerar um grupo distinto na sociedade portuguesa. Depois, aperceberam-se da sua subordinação aos grupos dominantes e da “injustiças” que, por isso, sofriam. Por fim, conseguiram ver-se como o “corpo da nação” e ver a sua luta como um movimento de interesse universal. As formas ideológicas específicas do republicanismo foram, evidentemente, determinadas pelo estatuto social dos dirigentes, quadros e simpatizantes do PRP. Mas a história de Portugal e a evolução interna do Partido também tiveram um papel fundamental. Sem a semi-colonização inglesa e a velha preocupação com a “decadência pátria”, o nacionalismo pouco haveria pesado. E o anticlericalismo apenas foi operativamente importante porque a Monarquia sobreviveu à ditadura de Franco: um acontecimento acidental. Deste modo, tantos factores sociais permanentes, como o jogo das circunstâncias geraram a ideologia que cimentou as massas urbanas num poder capaz de destruir aquilo a que a propaganda monárquica errada e orgulhosamente chamava um “regime multissecular”.Estranhamente, após 1910, com o fim da monarquia, as coisas não se resolveram. Voltámos a encontrar a velha polaridade esquerda-direita em campo. Agora, entre moderados (o Bloco) e radicais (os Democráticos). E a diferença residia essencialmente nisto: enquanto os moderados não queriam a plebe na política, os radicais exigiam-na, mas só como instrumento de poder, sem sombra de cooptação. Depois, com a dimensão religiosa e o ateísmo militante do lado radical, as coisas complicaram-se. O lado esquerdo jacobino, para além de cair sobre o povo rural (a grande maioria) com ideias que este não compreendia, ainda fez terra queimada da religião. O lado direito, que queria o regresso da ordem, tolerante, aceitava a Igreja desde que pudesse também apascentar o “povo”. Isso chegou-lhe para atrair muita gente deserdada pela revolução, mas não chegou para se impor à esquerda. Curiosamente, no paternalismo republicano, apesar da capa anti-clerical, podemos reconhecer a marca cristã, a roçar a vocação catequética. Provindo de tradições diferentes – será mesmo assim? lembremo-nos de Nietzsche e da Genealogia da Moral – encontramos paralelos fundamentais entre os crentes na Divindade, e os crentes na Humanidade, a saber: a apologia do trabalho, a valorização da instrução popular, o empenho associativista, a defesa do interclassismo.
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Para-teoria 2 - Liberalismo
A clivagem política universal que teve origem na grande revolução de 1789, só entrou realmente em Portugal nas primeiras décadas do século XIX, com as invasões francesas. No entanto, apesar do processo se ter iniciado antes, é costume situar o ponto histórico de viragem na revolução liberal de 1820. Só a partir daí terá verdadeiro sentido falar de esquerda e direita politica em Portugal.Inicialmente, e batendo-se depois na guerra civil, o campo da direita foi representado pelos “absolutistas” – defesa do poder absoluto do monarca – que só reconheciam a legitimidade da tradição; o campo da esquerda, conforme ao espírito moderno, assentava a legitimidade política nos cidadãos (onde o rei era sem distinção) e reclamava para estes, tanto a liberdade como a igualdade. Numa certa perspectiva, a direita e a esquerda portuguesas, descendem respectivamente, do senhor dom Miguel e do senhor dom Pedro. Acresce que, por causas religiosas profundas, a Igreja Católica sempre foi de facto, em Portugal, a organização mais influente no lado direito.
Mas depois da esquerda ter ganho a guerra civil, vamos encontrar de novo a polaridade direita-esquerda no campo liberal. Com a maioria já convertida às novidades, renasceu a divisão entre conservadores e revolucionários. Os primeiros sobrevalorizaram a tolerância (admitindo mesmo partilhar a soberania com o rei) e a liberdade (no fundo, outro nome que dão à propriedade); preferindo à cautela o sufrágio indirecto; exigiam ordem e, em teoria – mas não na prática, em Portugal, como prova Pulido Valente – o Livre-câmbio na economia. Os segundos, da esquerda, sobrevalorizaram a igualdade e só reconheciam a soberania do “povo” – conceito vago e variável com as conveniências momentâneas – por isso preferindo o sufrágio universal e directo. Para eles a ordem legítima – desconfiam de qualquer outra – é a que deriva da mudança violenta, na revolução, e na economia preferem o proteccionismo. No século XIX, os da direita chamaram-se cartistas (da Carta constitucional) e cabralistas – usamos igualmente os termos moderado, conservador e reformista – e os da esquerda chamaram-se vintistas (da constituição de 1822) e setembristas – igualmente radicais, progressistas e Democráticos.
Antes do século XX ter início, muitos dos da esquerda converteram-se ao republicanismo, contra a monarquia. Tornou-se na clivagem essencial: todo o mal do mundo vinha do privilégio real, e todo o bem surgiria da sociocracia positiva, que designavam por Republica, sob o signo da igualdade e da probidade. Obviamente, a corrupção resultava da monarquia.
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Para-teoria: esquerda e direita
Para pôr as ideias em ordem pensemos um pouco sobre o conceito de espaço político, de onde derivam os termos que se usam. Todos os sistemas políticos são caracterizados por conflitos. A estrutura desses conflitos integra-se no espaço político de um dado sistema, num dado momento histórico, e compõe-se do número de dimensões correspondente às linhas de conflito (clivagens), isto é, escolhas que influem no sistema. Conforme temos uma ou mais clivagens, falamos de espaços lineares ou de espaços pluridimensionais. O espaço político linear é o mais simples – só tem a dimensão esquerda – direita. Anthony Downs interpretou essa diferença como o grau de intervenção do Estado na economia, identificando a esquerda com maior intervenção e a direita com menor. Já para Seymour Lipset o divisor das águas reside na atitude favorável (esquerda) ou não (direita) à mudança do status quo. Mas devido à simplicidade inerente, os espaços lineares não explicam todos os comportamentos, porque ignoram outras dimensões de identificação e de competição, que ao cruzarem-se alteram a dinâmica global. Uma dessas dimensões é claramente a religião.Percebemos também que as identidades são dinâmicas e mutáveis ao longo do tempo, condicionam-se e interagem, sendo depois reflectidas melhor ou pior pela teoria política em voga. Percebemos ainda que a divisão entre esquerda e direita, para além de redutora, se vai tornando confusa com o passar do tempo, porque há direitas se apropriam de partes essenciais do programa clássico da esquerda, e vice-versa. No entanto na história portuguesa é possível – tendo em conta as dificuldades referidas – estabelecer duas grandes correntes que, ora divergem, ora convergem no tempo, com diferenças de ênfase nos valores e prioridades.
Pela dimensão económica não me parece fácil distinguir a esquerda da direita em Portugal. Nesse domínio, todos reclamam o abono do estado. Mas na dimensão, mais antiga, dos costumes, poderemos identificar dois pólos, que mergulham as raízes sociológicas no passado do processo histórico. Em Portugal, desde 1820 que existe nitidamente um campo que tende a conservar a ordem velha (direita), perante outro que pretende romper essa mesma ordem (esquerda).
Os nomes dos submarinos

Os países na Nato, tendem a denominar os submarinos com nomes de predadores marinhos, de deuses, de seres mais ou menos míticos e são, geralmente, ordenados alfabeticamente ou por grandes séries de letras – ex: “Oberon” foi uma classe de submarinos ingleses, que teve grande sucesso de exportação, (Chile, Brasil, Canadá, Austrália) nas décadas de 50 e 60; todos os outros dessa classe, na frota britânica, tinham nomes começados por “ O “ como por exemplo “ Osíris “ – este último foi vendido em segunda mão ao Canadá para peças... Portugal não escapou à regra, sendo que esta foi estabelecida há muito, pois tivemos submarinos pela primeira vez em 1913 (ainda encomendados pelo Sr. Carlos de Bragança em Janeiro de 1908...mau agoiro?). Assim os nossos “predadores marinhos” já foram repetidos várias vezes – esta última é a 4ª ou a 5ª esquadrilha de submarinos. Já tivemos “Nautilos”, “Neptunos” e “Narvais”; “Espadartes”, “Focas” e “Golfinhos” e os que agora estão velhos e serão substituídos eram o S163-Albacora, S164-Barracuda, S165-Cachalote e S166-Delfim (A, B, C e D). Albacora é igualmente um peixe carnívoro, voraz e grandote (1.2 m de comprimento) da família dos atuns - é até quase completamente igual anatomicamente. A sua forma específica inspirou alemães e americanos já no final da II Guerra, o que produziu o chamado "stream-lined submarine" e navios de pesquisa com o mesmo nome (USS Albacore, por exemplo).
Uma vez que os números dos novos submarinos são S167 e S168 – na sequência directa dos anteriores – é estranho que tenham sido adoptados nomes de armas para caçar animais marinhos (Tridente e Arpão) pois o que seria normal seria a repetição dos nomes “Espadarte” – E, e “Foca” – F. Existe no entanto uma patusca razão para tal: nos dias que correm “Espadarte” é coisa digna, mas “Foca” poderia suscitar, entre os nossos aliados “anglo-falantes”, risinhos na casa das máquinas ou paródia nos gabinetes da Nato: “ Foca ” é foneticamente igual a “ Fuck her “, ou seja “ Fode-a” ou "Ela que se foda". Há 40 anos, no tempo do respeitinho, a coisa não seria importante, mas agora foi preciso salvaguardar a “toponímia” e a malta da Armada, sempre atenta, fez a alteração. Mário Freire

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Não são brinquedos!

O novo NRP Arpão (S 168) baptisado pela Dra Maria Barroso à direita do comodoro Mello Gomes
Existem razões várias para que todo este processo se tenha tornado longo, complicado, opaco, pouco sério e, sabemo-lo agora, recheado de personagens de reputação duvidosa.
A decisão do governo Guterres, a da compra, fez todo o sentido: o submarino é um sistema de armas poderoso, potencia frotas de superfície, que por isso podem ser menores, mais ágeis e de menor custo e vulnerabilidade. Guterres chamou-lhe a “Bomba atómica dos pobres”, ou seja: “sabemos que forças poderosas podem agredir / atacar o País ou a União, mas ficam a saber que isso terá para eles custos materiais e humanos avassaladores; aqui reside a dissuasão. Não estou a ver o católico e mui-sério Guterres a deixar-se comprar por quaisquer negociantes de armas ou a deixar-se convencer por um qualquer militar reformado. A decisão foi de certeza ponderada e, segundo muita gente, correcta.
Fiquei particularmente chocado com o embaraço e a gritante ignorância do deputado Diogo Feyo, pessoa que prezo e estimo sinceramente, demonstrada no Jornal das Nove da SIC de dia 31.
Aqui vai alguma cronologia, com a minha modesta ajuda, para esclarecimento de quem queira: Salazar comprou a pronto, entre 1964 e 1968, 4 submarinos à França, que foram aumentados ao efectivo da Armada com os seguintes nomes e números-de-amura:
S163 – NRP Albacora (A)
S164 – NRP Barracuda (B)
S165 – NRP Cachalote (C)
S166 – NRP Delfim (D)
Em 1975 (!) o submarino S165 Cachalote, que tinha sido pago pelos Portugueses a pronto, foi devolvido a França e esta forneceu-o ao Paquistão, que mantinha à época mais uma guerra com a Índia (a França pagou-nos? era um acordo? era um favor? se pagou, quem recebeu o dinheiro? um intermediário? o erário público? um almirante revolucionário? um partido político? seria interessante investigar...). O navio foi incorporado na Marinha do Paquistão com o número S134 e o nome GHAZI. O submarino Paquistanês S131 HANGOR, do mesmo tipo, tinha afundado a fragata indiana INS KHUKRI em 12/07/1971.
Os nossos restantes 3 submarinos foram envelhecendo, navegando e cumprindo as suas discretas mas fundamentais missões.
À data da decisão de Paulo Portas / Governo Barroso, 2004, só já restariam operacionais 2, logo a decisão da compra de só duas unidades estava toscamente justificada perante a chamada “opinião pública”, assim como representava uma efectiva economia.
É preciso dizer que uma frota destas deve, teórica e idealmente, ser composta por 4 unidades: um em manutenção, outro em grande revisão e outros dois operacionais e agindo em conjunto. Três unidades são consideradas, por especialistas verdadeiros, uma frota possível mas “apertada”. Com dois, apenas um está operacional e nem sempre. Mas é melhor que nada. A guerra-fria acabou, os serviços de informações militares podem ajudar tentando antecipar ameaças e a disponibilidade dos navios e melhorando assim gestão da frota. Esta deve também apoiar missões anti-droga, anti-tráfico humano / escravatura, anti-pirataria e anti-terrorismo, com uma boa coordenação. A escolha só de dois navios era, apesar de tudo, justa e mais barata.
Foram escolhidos os melhores e mais eficazes submarinos da actualidade, os alemães: de facto, o material francês (e espanhol...) que perdeu o concurso não era de modo nenhum capaz de estar sequer próximo do nível de qualidade e eficácia dos navios escolhidos por Portugal. O sistema de propulsão sem oxigénio e silencioso (AIP – Air Independent Propulsion) que os franceses diziam que já tinham, estava apenas em fase de ensaio e ao que é sabido, dava problemas difíceis de ultrapassar; como paliativo prometiam incorporar depois da venda a Portugal, esse equipamento nos nossos navios, o que jamais iria acontecer. Os submarinos Franco-espanhóis eram apenas aparentemente mais baratos. Também deve ser referido que nem a França nem a Espanha queriam incorporar nas respectivas frotas esse tipo de navio. A própria Espanha, co-produtor/fabricante, definiu para a sua frota uma máquina mais ambiciosa, e muito mais cara, com sistemas de combate americanos, mísseis de cruzeiro e ainda espera pelo famoso motor sem oxigénio (AIP) de concepção francesa, o que parece ter aborrecido, ou outra coisa em “ido”, a parte francesa do negócio. Queriam portanto vender-nos material que rotulavam internamente de 2ª.
O submarino alemão que Portugal escolheu é o melhor: tem o seu motor independente do ar completamente funcional e eficaz; é furtivo ao ultra-som (sonar) e ao radar; é muito silencioso; tem um enorme raio-de-acção. Quebrava também uma dependência de Espanha e de França que não nos seria benéfica. Há também quem afirme – não sei se é verdade – que os nossos velhos submarinos de fabrico francês beneficiaram de técnicas portuguesas de melhoramento e reparação que Portugal jamais pôde registar e que foram abusivamente aproveitadas pelos franceses sem licença. Por tudo isto a escolha pelo submarino alemão parecia óbvia.
Se chegarem a ser aumentados ao efectivo da Armada terão os seguintes números-de-amura e nomes:
S167 – NRP Tridente (T)
S168 – NRP Arpão (A)
As negociatas, concursos viciados, pseudo-comissões de avaliação, pressões e outras boas-acções levaram a um processo longo e cheio de impugnações e protestos por parte do concorrente Franco-Espanhol. Os submarinos escolhidos por Portugal até tiveram de mudar de nome – truques de secretaria... O que compramos chama-se oficialmente Tipo U209-PN (Portuguese Navy) mas é directamente derivado do Tipo U214 com mais cerca de 4 a 5 metros de comprimento para alojar equipamento de comunicações e de gestão, de concepção e fabrico Nacionais e para poder ter uma guarnição parcialmente feminina. Como se vê foram feitos à medida das nossas necessidades e completamente adaptados às missões que vão desempenhar. NÃO SÃO BRINQUEDOS!
Mário Freire
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