15.2.10
A revolução de 1910: o Partido Republicano Português
Lidos e criados na história da Revolução Francesa, como diz Pulido Valente, os moderados do Partido não queriam acabar como qualquer girondino às mãos dos sans-cullotes portugueses, assanhados pela facção radical, a qual por sua vez desconfiava igualmente das massas populares, apesar de se sentir tentada a utilizá-las.
Os moderados entendiam que a Republica surgiria de um “levantamento nacional” que num dado momento, indeterminado, poria fim à Monarquia, sem precisar de ser forçado pelo PRP. Mas segundo Pulido Valente, os radicais, apoiando a conspiração em detrimento do legalismo, no fundo também não se entusiasmavam de verdade, desconfiavam da “canalha”, ou seja, pelo povo em que não tinham a certeza de mandar.
Após o golpe falhado do Porto de 1891, feito à revelia do cauteloso Directório, os notáveis moderados e radicais aproximaram-se na doutrina do “pronunciamento militar”, segundo a qual, só uma acção do Exército sob a direcção de oficiais generais, resolveria o problema da “revolução” a contento de todos. Para os doutores do PRP, os soldados não contavam por se tratar de “povo ignorante” – como o da revolta do Porto, classificada por João Chagas de "sargentada” – e só a oficialidade, uma elite culta, tinha a capacidade e também a responsabilidade, de abrir as portas do futuro. Não que o exército devesse, por regra, imiscuir-se na politica, mas no caso vertente, de conflito civilizacional entre a nação e o poder, era forçoso que se “pronunciasse”, sob pena de obstaculizar o progresso politico ficando na História como um exército de “pretorianos do rei”. Quando em 28 de Janeiro de 1908, o Partido tentou derrubar João Franco e a Monarquia, sem recorrer à perigosa colaboração da base, era essa equívoca “filigrana” teórica que o enformava. Os “salvadores da Pátria” pensavam em termos de golpe, não de levantamento, e falharam rotundamente. Porque a maioria dos oficiais, se não apoiava a Monarquia, nunca conspiraria contra ela. Dominados facilmente e presos, foram salvos in extremis do degredo em África, pelos assassinos do rei Carlos.
Entretanto, o tal “povo republicano”, sem pedir a bênção da direcção do Partido, foi-se livremente organizando, e mergulhou de forma autónoma na via revolucionária.
(tirado de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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