1.2.10
A revolução de 1910: a ideologia

Três factores terão potenciado essa ideologia:
a) O nacionalismo, a velha preocupação com a “decadência pátria”, um factor social permanente na História de Portugal, mas que sem a semi-colonização inglesa pouco teria pesado. Foi o “ultimato” o seu catalisador. A crise dividiu a nação em dois campos inimigos: por um lado a pequena burguesia urbana, e sectores do operariado oficinal, prontos a vingar a “injúria” e a “erguer a Pátria nos braços”; por outro, os adoradores do “Deus Milhão”, representados pelos “porcos da vara de Bragança”, que a “sangravam” e iam, a seguir, indiferentes, “caçar” enquanto o “estrangeiro odioso ria”. Depois do ultimatum, o PRP encarnou Portugal.
b) A evolução interna do partido republicano que, começou por se considerar um grupo distinto na sociedade portuguesa, mas que a pouco e pouco foi tomando consciência da marginalização que ia sofrendo, da subordinação aos partidos dominantes. A vida do PRP corresponde quase dia a dia à vida do Rotativismo, a corrupção e os “escândalos” desempenharam um papel central na formação da consciência republicana. Acreditava-se que, mal se deixasse de sustentar os “acumuladores” e “parasitas” monárquicos, o orçamento se reduziria a metade; sonhavam com um mundo onde todos tivessem os mesmos privilégios e oportunidades, numa visão essencialmente igualitária. O Partido apresentava-se à nação como paradigma de virtude, perdido num mundo pecaminoso, começando a ver-se a si mesmo como um movimento de interesse universal, verdadeiro “corpo da nação”.
c) Após as comemorações do “Tricentenário de Camões”, o partido tentou sem sucesso mobilizar a opinião “anti-jesuíta”. Mas foi só após 1909 que a campanha passou a ter êxito, porque o regime monárquico abandonou o seu liberalismo e passou a apoiar-se nos católicos ultramontanos (os famosos poderes ocultos). O anticlericalismo foi um factor circunstancial e operativamente importante, apenas porque a Monarquia sobreviveu à ditadura de Franco e à morte de D. Carlos. A violência exercida contra a “corja jesuítica” depois da revolução de Outubro, explica-se largamente pelo clima de histeria então criado pelo PRP.
(respingado de Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo 1974)
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