La force des choses
25.1.10
Ó Senhora das Coisas Impossíveis!
Nossa Senhora Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
(...)
Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos,
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por este hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.
Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.
Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunto a ti própria – Tu que me conheces – quem eu sou...
Álvaro de Campos, in Revista de Portugal nº 4, Julho de 1938
Etiquetas: álvaro campos, poesia, religião
15.6.09
13.6.09
The beginning

And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
Through the unknown, unremembered gate
When the last of earth left to discover
Is that which was the beginning;
At the source of the longest river
The voice of the hidden waterfall
And the children in the apple-tree
Not known, because not looked for
But heard, half-heard, in the stillness
Between two waves of the sea.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
Etiquetas: filosofia, história, poesia
12.6.09
Who then devised the torment?
The dove descending breaks the airWith flame of incandescent terror
Of which the tongues declare
The one discharge from sin and error.
The only hope, or else despair
Lies in the choice of pyre of pyre —
To be redeemed from fire by fire.
Who then devised the torment? Love.
Love is the unfamiliar Name
Behind the hands that wove
The intolerable shirt of flame
Which human power cannot remove.
We only live, only suspire
Consumed by either fire or fire
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
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11.6.09
Every poem an epitaph
What we call the beginning is often the endAnd to make and end is to make a beginning.
The end is where we start from.
And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home,
Taking its place to support the others,
The word neither diffident nor ostentatious,
An easy commerce of the old and the new,
The common word exact without vulgarity,
The formal word precise but not pedantic,
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning,
Every poem an epitaph.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
Etiquetas: filosofia, história, poesia
10.6.09
A symbol perfected in death
We cannot revive old factionsWe cannot restore old policies
Or follow an antique drum.
These men, and those who opposed them
And those whom they opposed
Accept the constitution of silence
And are folded in a single party.
Whatever we inherit from the fortunate
We have taken from the defeated
What they had to leave us—a symbol:
A symbol perfected in death.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
Etiquetas: filosofia, história, poesia
9.6.09
Love of a country
There are three conditions which often look alikeYet differ completely, flourish in the same hedgerow:
Attachment to self and to things and to persons, detachment
From self and from things and from persons; and, growing between them, indifference
Which resembles the others as death resembles life,
Being between two lives—unflowering, between
The live and the dead nettle. This is the use of memory:
For liberation—not less of love but expanding
Of love beyond desire, and so liberation
From the future as well as the past.
Thus, love of a country
Begins as attachment to our own field of action
And comes to find that action of little importance
Though never indifferent. History may be servitude,
History may be freedom. See, now they vanish,
The faces and places, with the self which, as it could, loved them,
To become renewed, transfigured, in another pattern.
T. S. Eliot, Four Quartes, Little Gidding
Etiquetas: filosofia, história, poesia
8.3.09
Às gajas...
Mas quem terá, Senhora,Palavras com que iguale
Com vossa fermosura minha pena?
Que em doce voz de fora,
Aquela glória fale
Que dentro da minha alma Amor ordena?
Não pode tão pequena
Força de engenho humano
Com carga tão pesada.
Se não for ajudada
De um piedoso olhar, de um doce engano,
Que, fazendo-me o dano
Tão deleitoso e a dor tão moderada,
Enfim se convertesse
Nos gostos dos louvores que escrevesse.
Canções V, do grande Luís Vaz, edição de Lobo Soropita, 1595
Etiquetas: camoes, poesia, tretas
2.3.09
O amor é que é essencial.O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.
Pessoa, 1935, por Richard Zenith in Poesia do Eu, Assírio&Alvim 2006
Etiquetas: pessoa, poesia, tretas
1.3.09
Eu
Eu que nunca verei a aventura de pertoQue nunca beijarei os lábios da Distância
E nunca sentirei vir p’ra mim a fragrância
De Índias reais sob um céu outro e certo
E eternamente numa incerta infância
Pessoa, A vida de Arthur Rimbaud, 23-02-914
Etiquetas: pessoa, poesia, viver
1.8.08
Sá

Quase o amor, quase o triunfo e a chama, quase o princípio e o fim, quase a expansão.
Mas na minha alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo...e tudo errou... ai a dor de ser quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim.
Asa que se elançou mas não voou...
Etiquetas: poesia, sá carneiro
26.2.08
From high mountains
Nun feiern wir, vereinten Siegs gewiss,Das Fest der Feste:
Freund Zarathustra kam, der Gast der Gaste!
Nun lacht die Welt, der grause Vorhang riss,
Die Hochzeit kam fur Licht und Finsterniss.....
Sure of our victory, we celebrate
The feast of feasts:
Friend Zarathustra came, the guest of guests!
The world now laughs, rent are the drapes of fright,
The wedding is at hand of dark and light.....
Sils Maria 1885The feast of feasts:
Friend Zarathustra came, the guest of guests!
The world now laughs, rent are the drapes of fright,
The wedding is at hand of dark and light.....
Etiquetas: filosofia, nietzsche, poesia
22.2.08
Campos

Há sem dúvida quem ame o infinito
Há sem dúvida quem deseje o impossível
Há sem duvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas e eu nenhum deles
Porque eu amo infinitamente o finitoPorque eu desejo impossivelmente o possível
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser
Ou até se não puder ser…
Etiquetas: álvaro campos, poesia
10.1.08
Poesia Matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?”indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs –
Primos-entre-si. (continua)
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?”indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs –
Primos-entre-si. (continua)
Etiquetas: millôr fernandes, poesia
Donde vem o encanto da poesia?

Vendo repassar diante dos nossos olhos estas imagens, experimentaremos da nossa parte o sentimento que, por assim dizer, é o seu equivalente emocional; mas estas imagens não se realizariam tão fortemente para nós sem os movimentos regulares do ritmo, pelo qual a nossa alma, embalada e adormecida, se esquece, como num sonho, para pensar e ver com o poeta.
Etiquetas: poesia
19.8.07
De boca em boca
Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa.Capaz de impulsos violentos e absorventes, mas nunca de um sentimento que subsista.
Uma impaciência da alma consigo mesma, tudo me interessa e nada me prende.
E assim sou, fútil e sensível...
by The Lady, from the restless poet Soares, perhaps referring to me :)
Etiquetas: bernardo soares, poesia, susana, viver
5.7.05
Nossa Senhora das Coisas impossíveis

Dennis Mecham
Vem, Noite antiquíssima e idêntica.
Noite Rainha nascida destronada.
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito
in Dois excertos de Odes, de Álvaro de Campos
Etiquetas: álvaro campos, poesia
3.7.05
Sou passado incrustado no futuro
Passages Obscurs
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossível, aguardam-me naufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra cousa, nem cousa nenhuma…
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde me moro sem causa,
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos, sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.
Obras Completas, Eng. Álvaro de Campos, p. 258
Etiquetas: álvaro campos, poesia
27.6.05
Quando ela passa

Tamara de Lempicka
Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa… passa… passa…
Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa… não passa…
Fernando António
24.6.05
O Íbis

O Íbis, a ave do Egipto,
Pousa sempre sobre um pé
O que é esquisito.
É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.
Do jovem Fernando António Nogueira Pessoa


