Do destroço
...tal como nós, quando o socialismo real causou em todos os lados os mesmos efeitos, pensámos que o mal estava nos homens maus e também no socialismo real, uma exigência de rigor devia levar os simpatizantes do capitalismo a admitir que o mau cheiro da panela destapada não vem só dos maus intérpretes da economia de mercado. (Luís in A Natureza do Mal)
Eu, que nunca pensei que os selvagens fossem naturalmente bons, li. Eu simpatizo com a liberdade em geral, e a de todos os bichos em particular, se é que isso implica "ser simpatizante do capitalismo". Eu também nunca pensei que os concertos ideológicos - digam comunismo ou digam mercado - nos salvassem da bestialidade ancestral. Mas a náusea, está de facto, tão activa, que com facilidade concedo: aceito que o mau cheiro não é específico de um ponto cardeal, o mau cheiro é mesmo intrínseco à coisa.
Quando hoje, aqui, há gajos que condenados, não pagam mais de 5.000 euros, por quererem putrefazer vereadores municipais. Quando aqui, hoje, há lixo a caducar - como se o deixasse de ser - ao fim de meia dúzia de anos, e os tribunais demoram o dobro disso a almejar uma condenação. Quando o único deputado, a tentar aqui algo de sério, contra o que publicamente fede, é exportado para lá do sol-posto e o que pedia vai para o caixote.
Talvez esteja na altura de voltar ao princípio. Começar por distinguir o que é mal do que é bem. Não sei. Saber que coisa queremos, que alma se tem…
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O Mundo é de quem não sente (9 de Agosto de 1945)

Yuji Chida /Ground Zero 1945: a Dor dilacerante de se ser humano
A condição essencial para um homem prático é a ausência de sensibilidade.
Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista, porque quem não sente é feliz.
Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto.
Para agir é preciso pois que não nos figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias.
Quem simpatiza pára.
O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte.
Ou inerte em sim mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho;
Ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância é a do estratégico.
Toda a vida é guerra e a batalha é pois a síntese da vida.
Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças de jogo.
Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações?
Que seria do mundo se fossemos humanos?
(Do Livro do Desassossego do Bernardo Soares; ao Luis )
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