La force des choses
23.2.09
Quando o dinheiro parou
Há quem considere que, pelo efeito perturbador exercido sobre as pessoas e, consequentemente, sobre o seu comportamento, a Grande Depressão é considerada como o acontecimento do século (…) Nenhuma das duas guerras teve efeito semelhante sobre tanta gente (…) Poucos dos que sobreviveram à Grande Depressão ficaram indemnes perante a experiencia. Em contraste com as guerras, deu-se muito pouca atenção aos factores que converteram as desconfortáveis e dolorosas crises do século passado nesta profunda e duradoura tragédia.Para os marxistas tratou-se, simplesmente, de outra manifestação da tendência fatídica do capitalismo; foi pior que as predecessoras, porque estava destinada a piorar até ao derradeiro colapso apocalíptico.
Para os eruditos ortodoxos da época foi outra queda no ciclo económico, queda que foi, muito possivelmente, prolongada pelos esforços mal conduzidos dos governos para lhe pôr termo.
Nem o súbito colapso do mercado de acções, nem a especulação que a precedeu têm sido considerados como causa decisiva. O mercado foi uma resposta a forças mais profundas e mais fundamentais; não foi em si mesmo a causa da mudança. (…)
A vida económica, como sempre, é a matriz em que o resultado se converte na causa e a causa no resultado. (…)
Em 1932, a Reserva Federal dominou finalmente o seu receio da inflação e começou as suas operações de mercado aberto. Compravam-se títulos; de acordo com isso o dinheiro afluía aos bancos. Era demasiado tarde.
Os banqueiros assustados retinham o dinheiro assim recebido como mais uma segurança contra o dia em que os seus depositantes viessem. Em parte por causa deste receio, chegariam em breve a manter reservas muito para além das suas necessidades – e este estado de coisas manter-se-ia durante muitos dos anos subsequentes.
GALBRAITH; John Kenneth, Money, 1975
Pouco iluminado estou, sobre o desenrolar do drama económico actual.
O texto de Galbraith aborda semelhanças, mas contém também diferenças, relativamente a 1929.
Nas semelhanças creio poder incluir sem grande margem de erro, a marca indelével que esta crise vai deixar na geração actual; também a avaliação dos factos pelo marxismo ressuscitado se assemelha - já os ortodoxos, hoje chamados neo-liberais, estão caladinhos, talvez a ver se percebem; igual também a importancia do dinheiro, como seiva vital da economia, e o efeito destruidor do colapso dos mercados de capitais – mas desta vez, diversamente, derivando do colapso do mercado imobiliário; semelhante ainda a reacção dos bancos assustados, retendo o dinheiro recebido (ou avalizado) dos estados – mas desta vez, diferente foi a reacção dos governos, muito mais rápida, injectando dinheiro, evitando falências e agindo directamente nos mercados.
Creio que mais duas situações contextualizam a diferença.
A maior responsabilidade da grande crise económica do século XXI recai, não nos capitalistas no sentido clássico, mas nos gestores. Foi essa corporação do novo século que, manipulando uma economia virtual, enriqueceu, dando a si mesma prémios pornográficos - dou aqui a mão à palmatória a Mário Soares, a quem oiço de há muito criticar o novo capitalismo das alavancagens financeiras;
A ligação e integração das economias do mundo nunca foi tão completa – o que impede reacções de fechamento ao exterior, como sucedia antes – e isso é completamente novo: ninguém se pode salvar sozinho.
Mantém-se, contudo, uma semelhança fulcral: o peso enorme da América do Norte na economia mundial. Em 1929 foi a dependência da sua força que arrastou a Europa para o desastre; em 2008, tive alguma esperança que os países emergentes, China, Índia, etc. pudessem compensar o afundanço com a sua vitalidade. Ainda não será assim, desta vez. Creio já ter percebido, que tal como antes, enquanto os Estados Unidos não recomeçarem a crescer, o mundo vai estar parado; ainda são eles a locomotiva, ainda é lá que está o factor crítico.
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