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La force des choses
2.3.09
 
O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Pessoa, 1935, por Richard Zenith in Poesia do Eu, Assírio&Alvim 2006

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1.3.09
 
Eu
Eu que nunca verei a aventura de perto
Que nunca beijarei os lábios da Distância
E nunca sentirei vir p’ra mim a fragrância
De Índias reais sob um céu outro e certo
E eternamente numa incerta infância

Pessoa, A vida de Arthur Rimbaud, 23-02-914

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29.6.05
 
Vertigem moral

Dennis Mecham

Estou cansada de confiar em mim própria, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar, com lágrimas, sobre o meu próprio eu.

Acabo de ter uma cena…
No fim dela senti de novo um desses sintomas que cada vez se tornam mais claros e sempre mais horríveis em mim: uma vertigem moral.

Na vertigem física há um rodopiar do mundo externo em relação a nós: na vertigem moral, um rodopiar do mundo interior.
Parece-me perder, por momentos, o sentido da verdadeira relação das coisas, perder a compreensão, cair num abismo de suspensão mental.
É uma pavorosa sensação esta de uma pessoa se sentir abalada por um medo desordenado.

Estes sentimentos vão-se tornando comuns, parecem abrir o caminho para uma nova vida mental, que acabará na loucura.

(Traduzido e adaptado do Diário inglês do jovem Fernando António, July 25-1907)

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27.6.05
 
Quando ela passa

Tamara de Lempicka

Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa… passa… passa…

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa… não passa…

Fernando António

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24.6.05
 
O Íbis


O Íbis, a ave do Egipto,
Pousa sempre sobre um pé
O que é esquisito.


É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.

Do jovem Fernando António Nogueira Pessoa

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8.6.05
 
No where seen from the train

Margarida Delgado

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.


If there be a Hell, I’ve found it,
For if ain’ here, where the Devil is it?

F. Nogueira Pessoa

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3.6.05
 
Homo Viator

Passages Obscures

Nunca,
por mais que viaje,
por mais que conheça,
O sair de um lugar,

O chegar a um lugar,
conhecido ou desconhecido,
Perco,

ao partir,
ao chegar,
e na linha móbil que os une,
a sensação de arrepio,

O medo do novo,
A náusea –
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem alma,
trinta dias de viagem,

três dias de viagem,
três horas de viagem –
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.

1929, Fernando

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Retorno

Tomar, a minha, na antiga Corredora

Eu?

Mas sou eu o mesmo que aqui vivi,
e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar,

e a voltar,
E aqui de novo tornei a voltar?


Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?


Fernando

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22.4.05
 
Poesia Pessoana
...feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só o azar...

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19.4.05
 
Sebastianismo

D. Manuel I
Rey de Portugal e dos Algarves

de Aquém e de Além Mar em África,
Senhor da Guiné, da Conquista, da Navegação

e do Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia

Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


É a Hora!

Fernando António (Nevoeiro)

Comment: Apesar da alta consideração que tenho pelo Rei das Índias,
prefiro dar o coiro pelos meus filhos!...




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12.4.05
 
Pessoa e os heterónimos...

O chapéu do poeta Fernando Pessoa,1979, óleo s/tela de Costa Pinheiro

Lisboa. 26 de Novembro de 1935

No quarto passa a noite debruçado à secretária.
Confundimo-lo com os livros, papéis, também lápis minúsculos que só ele consegue manusear.
O cinzeiro cheio de pontas de cigarro.
Escreve, compulsivamente, ao jovem amigo Casais Monteiro:
"…Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.)"


A carta vai a todo o vapor quando Pessoa começa a receber visitas inesperadas.
Caeiro, Reis, Campos e Soares.
Chegam um a um.
É madrugada e já estão todos reunidos.

São surpreendidos por um Pessoa emocionado, papéis em punho.
Terá recebido más notícias? perguntam, preocupados.
O poeta tenta desconversar.
É confuso, perde-se nas palavras, coisa que nunca acontecera antes.
Mas também nunca recebera visitas em tão adiantada hora.

É obra do "Grande Arquitecto do Universo", pensa.
Então que se cumpra o destino... Aos solavancos:
- Adiei a verdade quanto pude. É chegada a hora de deixar cair a máscara.


Os quatro ansiosos.
Quem está sentado levanta-se, quem está de pé senta-se ou passeia pelo quarto.
Pessoa e o seu discurso enviesado, interrompido por dores e gemidos:
- Numa carta confidenciava a um amigo tudo o que agora sinto que devo dizer-vos.
Um gole de coragem e solta:
- Vocês não existem.


Consternação na assistência.
- É isso, vocês não são mais que personagens da minha criação.
Morro e levo-os comigo.
- Só pode ser delírio. Desatino. (diz Álvaro de Campos, ofendido).
- Vou-lhes contar como tudo aconteceu. "Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso.

E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir.
Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim.
Abri com um título, O Guardador de Rebanhos.
E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir - instintiva e subconscientemente - uns discípulos.
Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nesta altura já o via.
E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo.
Num acto, e à máquina de escrever, sem interrupção, nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro Campos - a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem."

- Então, todo este tempo não passámos de uma mentira? (pergunta Ricardo Reis).
Bernardo Soares responde:
O poeta é um fingidor

Mente tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


- Pois esta é a chave, explica Pessoa.

- Não aceito. Morra em paz o meu criador, porque eu cá continuarei vivinho, poetando como sempre (desafia Álvaro de Campos).

- Arre! Que a criação agora vira-se contra o próprio criador.
Deveria ter suspeitado (lamenta-se Pessoa).
E quanto a si, Caeiro?

- Gosto de tudo que seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente, porque tudo é real e tudo está certo.

Álvaro de Campos:- Não entendo a sua complacência.
Não está a ver, Caeiro, que Pessoa usou-nos e, principalmente, usou-o.
Compelido a vencer o seu subjectivismo lírico decadentista, venceu-o de forma tão súbita e agressiva que não teve remédio senão dar um nome a esse crítico.
É ai que você surge, para salvá-lo.

Caeiro não esconde seu desgosto.

Pessoa então revela:
- Escrevi, com sobressalto e repugnância, o poema oitavo do Guardador de Rebanhos, com a sua blasfémia infantil e antiespiritualista.

A cada personalidade que consegui viver dentro de mim, dei uma índole expressiva, e fiz desta personalidade um autor, com livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais eu, autor real, nada tenho, salvo o ter sido, no escrevê-las, o médium de figuras que eu próprio criei.

- Você não tinha esse direito (insiste Campos).

Ainda Pessoa:
- Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth.

Se assim é das personagens fictícias de um drama, é igualmente lícito das personagens fictícias sem drama, pois que é lícito porque elas são fictícias e não porque estão num drama.
Parece escusado explicar uma cousa de si tão simples e intuitivamente compreensível.
Sucede, porém, que a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável.

Ricardo Reis, que assistira mudo à revelação, pergunta:
- Mas por que é que você nos inventou? Qual a origem de tudo?


Pessoa, pacientemente, tenta explicar-lhe:
- É o fundo traço de histeria que existe em mim.

Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico.
Seja como for, a vossa origem mental está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação.
Se eu fosse mulher - na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema do Álvaro de Campos (o mais histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança.
Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia…

A resposta não convence, não agrada.
Longe está o tempo em que fora loquaz.
Agora fazem-lhe ouvidos moucos.
Pessoa é todo angústia.
O silêncio que o rodeia.
A incompreensão, mágoa e até o desprezo dos seus outros "eu".
Vira-se para um último apelo.

Fica só com a sua verdade.

Descobri este texto delicioso, escrito por Mirna Queiroz recorrendo a originais do poeta.
O Fernando morreu pouco depois, a 30 de Novembro de 1935, no Hospital de S. Luís dos Franceses.

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24.3.05
 
Morre jovem o que os Deuses Amam
"Sá-Carneiro não teve biografia: teve só génio. O que disse foi o que viveu."

Fernando Pessoa


Obras de Mário de Sá Carneiro (1890 - 1916):
- Princípio (novela) - 1912;
- Dispersão (poemas) - 1914;
- A Confissão de Lúcio (narrativa) - 1914;
- Céu em Fogo (contos) - 1915;
- Indícios de Oiro - 1937;
- Poesias - 1946;
- Poemas juvenis - 1903/1908 - 1986;
- Cartas a Fernando Pessoa - 1958/59.

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