La force des choses
14.1.08
Lutz e a página 161
É pá, Lutz! :(
Só agora, indo ao Technorati vi o desafio. Andei muito por fora e só agora é que vi. Ainda assim dás-me um mote, para despachar um autor que aprecio e tenho junto.
A 5ª frase completa (boa por sinal) da página 161 do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência de Henri Bergson, Edições 70, 1988, tradução de João da Silva Gama, é esta:
“Mas, em vez de concluir que a duração real é heterogénea – o que, ao elucidar esta segunda dificuldade, teria despertado a sua atenção para a primeira – Kant gostou mais de situar a liberdade fora do tempo, e de levantar uma barreira insuperável entre o mundo dos fenómenos, que deixa para o entendimento, e o das coisas em si, cujo acesso nos proibiu.”
Mil desculpas, e a esta altura já nem preciso encadear ninguém, por perda de oportunidade. O que me apraz, lol
Etiquetas: bergson, blogs, filosofia, kant, lutz
5.8.05
Para a Paz (Perpétua)

American Battle Monuments Commission
Em 1795, no primeiro estado marcial moderno (Prússia) e em plena época das monarquias absolutas, Emmanuel Kant escreveu um ensaio sobre a Paz, “Toward Perpetual Peace: A Philosophical Sketch” , ainda hoje considerado uma proposta utópica.
Mas Kant não era um pacifista utópico, tal como Hobbes ele sabia que o Homem é violento e que a guerra está na sua natureza!
E a Paz que propôs não é a dos objectores de consciência do séc. XX - “make love, not war” dos hippies nos anos sessenta - nem é a de Alain ou do socialismo utópico de Jaurés.
A Paz de Kant vinha do século XVII com o Abée St Pierre e chegou ao séc. XX com Bobbio e Habermas.
E foi esse sonho do maior filósofo que fundamentou a teoria sobre relações internacionais que herdámos do século XX.
No texto, Kant começa abrupto: A Paz Perpétua é o dístico que se coloca nas sepulturas, após as guerras.
Ironiza:
- A Humanidade pode encontrar a Paz Perpétua numa vasta sepultura onde todos sejam enterrados.
- Ou pode resolver o problema da violência e emergir do estado de Natureza com uma nova forma cosmopolita de lei federando pacificamente todos os povos.
Intelectualmente projectamos sempre a Paz e todas as guerras buscam também uma paz, mas uma “paz” militar, a Pax Romana.
Essa “paz” imposta, desconfiada, que prepara a guerra, não é verdadeira, é estado de guerra, uma trégua entre guerras.
E a trégua não passa de ausência de guerra, o espírito (da guerra) mantém-se, há uma suspensão mas está lá.
Para Kant não há prática sem teoria subjacente (estabelece sempre uma relação entre a Teoria e a Prática).
Se há a prática de guerra, é porque o quadro teórico é também de guerra.
A cultura guerreira da divisa romana “se queres a paz, prepara a guerra”, cedo ou tarde, trará a guerra.
Diz-nos Kant que só mudando o paradigma teórico poderemos mudar a prática.
Querer a Paz implica assumir uma cultura que acredite mesmo na Paz; é uma questão mental.
Temos de decidir racionalmente se queremos Paz ou Guerra
A Razão condena a guerra em absoluto, a Guerra é um crime (faz excepção para a legítima defesa).
Assim coloca o estabelecimento da Paz como um imperativo moral (para ele a Moral é inseparável).
O progresso moral do Homem terá apenas um Marco no caminho; resolver ou não o problema da guerra, e estabelecer uma comunidade universal de todos os povos, governada pelo primado da Lei.
Este ideal Cosmopolita não é só necessário para a sobrevivência da espécie, é também um requisito da razão prática.
A ideia de Kant é de um equilíbrio que tem que ser construído diariamente, e por isso ele escreveu “para” a Paz;
A receita do filósofo divide-se em duas partes;
Primeiro os seis artigos preliminares (condições negativas) construtores da confiança, condição da vida pacífica;
Segundo os três artigos definitivos (condições positivas) que preconizam uma nova (em 1795, note-se!) relação nos estados, a República internamente e a Federação externamente.
Section I containing the preliminary articles for perpetual peace among states
1.No Treaty of Peace Shall Be Held Valid in Which There Is Tacitly Reserved Matter for a Future War.
2.No Independent States, Large or Small, Shall Come under the Dominion of another State by Inheritance, Exchange, Purchase or Donation.
3.Standing Armies (miles perpetuus) Shall in Time Be Totally Abolished.
4.National Debts Shall Not Be Contracted with a View to the External Friction of States.
5.No State Shall by Force Interfere with the Constitution or Government of Another.
6.No State shall, during War, Permit Such Acts of Hostility Wich Would Make Mutual Confidence in Subsequent Peace Impossible: Such Are the Employment of Assassins (percurssores), Poisoners (venefici), Breach of Capitulation, and Incitment to Treason (perduellio) in the Opposing State.
Section II containing the definitive articles for perpetual peace among states
1.The Civil Constitution of Every State Should Be Republican.
2.The Law of Nations Shall Be Founded on a Federation of Free States.
3.The Law of the World Citizenship Shall Be Limited to Conditions of Universal Hospitality.
Etiquetas: idealismo, kant, paz, politica
6.7.05
Sobre a imposição do "Reino dos Céus"

Um interessante artigo de Madeleine Albright (pessoa que estimo politicamente) publicado pela Foreign Affairs de Set/Out 2003, sobre o Terrorismo e a invasão do Iraque, suscitou-me algumas reflexões sobre o assunto.
O artigo começa com três citações que definem duas posturas políticas diferentes nas Relações Internacionais, a dos falcões (dois inimigos) e a das pombas europeias (Villepin), que penso, encerram em si algum maniqueismo (as duas primeiras) e hipocrisia (a segunda).
“Todas as nações, de todas as regiões, têm agora que tomar uma decisão.
Ou estão connosco ou estão com os terroristas.”
George W. Bush após o ataque de 11 de Setembro
“Só existem duas potências no Mundo actual.
Uma é a América, que é tirânica e opressiva.
A outra é um guerreiro que ainda não foi acordado do seu sono, e esse guerreiro é o Islão.”
Iman Mouaid Al-Ubaidi, clérigo sunita de Bagdad
“Não se equivoquem: a escolha é entre duas visões do Mundo”
Dominique de Villepin, Ministro dos Negócios Estrangeiros da França
O iman iraquiano, sem defender o Terrorismo explicitamente, usou o mesmo tipo de simbolismo que o presidente americano.
A escolha “connosco ou contra nós” lançada pelo George W foi desmontada e reformulada, colocando-se o Islão como a autoridade moral, e o “mal americano” a substituir o verdadeiro mal: o Terror.
Esta é uma visão do “Choque das Civilizações” que Bush e Al-Ubaidi pelos vistos compartilharam.
A terceira e última citação lembra que nem todos dividem o Mundo com as mesmas linhas dos Estados Unidos e dos Islamitas radicais.
É um facto e ainda bem.
A França condena a visão de um Mundo unipolar, em que Washington age sem restrições, contrapondo um Mundo multipolar, em que o poder americano seria compensado e equilibrado por uma Europa unificada.
Mas debaixo da batuta franco-alemã claro!
Por detrás desta segunda visão está a ideia de que o poder americano, em vez de fortalecer a Europa, põe em risco os seus interesses.
Discordo.
Essa ideia esquece a Normandia, esquece a crise de Berlim, esquece mesmo o recente Kosovo.
A ideia por detrás desta segunda visão do Mundo poderia ser outra, não a que nasce do orgulho ferido francês perante o poder americano (aliás a França faz o mesmo em África, sempre que pode) mas a que nasce do discurso Kantiano “Para a Paz Perpétua” que exclui totalmente qualquer atitude unilateral e acentua o esforço conjunto internacional, substanciado na Organização das Nações Unidas.
Contrariamente à atitude americana, agreste, que descreve a América como Marte e a Europa como Vénus (ideia do “soft power” versus “hard power”), Bush&Companhia fariam melhor se identificassem a atitude europeia com Minerva.
A Europa sofreu em si, nas suas cidades, duas guerras arrasadoras;
A Europa também quis em tempos estabelecer à força o “reino de Deus na Terra”, um Estado político preferencial, como pretendem agora os Teocratas Islâmicos ou os “Democratas Bombardeiros” americanos.
E a Europa sabe como Marte também se exaure.
A Alemanha que o diga…
Em política internacional, não sou pacifista, sou Kantiano.
Etiquetas: kant, paz, politica, terror

