La force des choses
6.5.08
22.9.07
Terras que senti
A primeira reacção é de espanto.
Um olhar negro profundo, entre o assustado e o curioso, é uma expressão que se vai repetindo em cada aldeia que visito, mas com a singularidade de cada região e…de cada pessoa.
Há uma confusão que se estabelece entre o “belo” e o “constrangedor”.
Mas prevalece a emoção e a verdade destes encontros entre “almas” sem cor, sem raça, sem religião, somos apenas seres humanos que nos cruzamos.
A humanidade devia procurar aprofundar o que tem de mais genuíno, de mais profundo, afinal o que tem de perene.
Isto sente-se, nestes momentos.
Neste caso, estou consciente de que foram “momentos únicos”, muito especiais, carregados de uma emoção ímpar e intransmissível, uma experiência interior privilegiada.
E todos estes momentos são tão fortes que nunca esquecerei os seus rostos.
Os rostos que irão marcar esta etapa da minha vida, são muitos…mas alguns ficarão registados para sempre.
Depois do trabalho concluído, o motor foi ligado, o ruído começou novamente e esta aldeia ficou para trás, debaixo de uma nuvem de pó.
A pobreza é sempre tanta que nos inibe.
Mas por outro lado, tudo é genuíno e por isso faz sentido, “sentir”.
Rita Jasmim
Etiquetas: afectos, áfrica, rita j, viver
18.9.07
Terra que vi
Diga-se a verdade, o outro helicóptero era de passageiros, cómodo, insonorizado, destinado a fazer o transbordo de passageiros entre o aeroporto JFK e La Guardia.
Este helicóptero é bem diferente, é de carga.
Depois do carregamento, sobrou algum espaço para as pessoas. Rebateram-se aquela espécie de bancos (refira-se, sem costas) e o enorme ruído começou.
Ruído esse que nos acompanhou durante seis horas.
Chegámos ao primeiro destino.
Começou aí a verdadeira emoção.
Toda a população correu em direcção a este estranho “animal voador” e no meio de uma multidão pejada de crianças, surgiram dois idosos.
Vieram ter comigo com uma atitude de respeito tão visível nos seus rostos e olhares, baixaram a cabeça, apertaram-me a mão suavemente, senti a pele seca e curtida. Senti a idade daqueles homens.
E eles sentiram pela forma como os olhei a admiração que tenho pela função que exercem por esse interior fora.
Vinham identificados como Regedores, cargo acima de Soba,
num papelinho escrito à mão, com dificuldade e preso com um alfinete no bolso do (provavelmente único) casaco.
Esta aldeia, como tantas outras espalhadas pelo interior, é pobre, muito pobre.
Ruído esse que nos acompanhou durante seis horas.
Chegámos ao primeiro destino.
Começou aí a verdadeira emoção.
Toda a população correu em direcção a este estranho “animal voador” e no meio de uma multidão pejada de crianças, surgiram dois idosos.
Vieram ter comigo com uma atitude de respeito tão visível nos seus rostos e olhares, baixaram a cabeça, apertaram-me a mão suavemente, senti a pele seca e curtida. Senti a idade daqueles homens.
E eles sentiram pela forma como os olhei a admiração que tenho pela função que exercem por esse interior fora.
Vinham identificados como Regedores, cargo acima de Soba,
num papelinho escrito à mão, com dificuldade e preso com um alfinete no bolso do (provavelmente único) casaco.
Esta aldeia, como tantas outras espalhadas pelo interior, é pobre, muito pobre.
Mas todas têm um local de reunião, de diálogo, um Jango onde o soba transmite as recomendações provenientes da Administração local e…onde se relata a História deste povo, os acontecimentos mais importantes da aldeia, onde se dirimem conflitos, onde também se julgam os cidadãos que prevaricaram.
Nestes locais, as famílias vivem em kimbos, a economia é se auto-subsistência e o tempo corre com uma única referência, o nascer e o pôr do sol, determinando as tarefas diárias para homens, mulheres e crianças.
Sim, porque aqui todos têm uma função dentro destas pequeninas comunidades e o conceito de “solidariedade” faz sentido, porque faz parte da sobrevivência.
Nestes locais, as famílias vivem em kimbos, a economia é se auto-subsistência e o tempo corre com uma única referência, o nascer e o pôr do sol, determinando as tarefas diárias para homens, mulheres e crianças.
Sim, porque aqui todos têm uma função dentro destas pequeninas comunidades e o conceito de “solidariedade” faz sentido, porque faz parte da sobrevivência.
Rita Jasmim
Etiquetas: áfrica, rita j, viver
30.8.07
Um óbito
Sentimentos…que todos os dias se alteram, nesta terra em que o tempo tanto corre, como não passa por nós.
Hoje o dia começou com um funeral, como se diz aqui, um “óbito”. A tia da Ivone faleceu e o funeral foi hoje no Cemitério do Alto das Cruzes (no Bairro Miramar).
Chegámos ao Cemitério, o calor era imenso, abafava, fazia suar pelo rosto abaixo. Vimos então, já o acompanhamento de um funeral.
Não sabíamos se era aquele. Faltavam 5 minutos para as 13h e podia ser outro.
Perguntei a uma mulher, que no seu compasso lento, seguia aquele grupo pesaroso e respondeu-me que era o funeral da Marisa. Agradeci e lembrei-me vagamente do nome, por várias conversas que a Ivone teve comigo.
Este funeral envolveu-me de vários sentimentos. Naturalmente que qualquer funeral ainda me faz recordar a morte da minha mãe. Mas para além dessa inevitabilidade, fez-me lembrar os funerais de negros noutras partes do mundo.
Não se estava a festejar a morte como em New Orleans, mas a tristeza profunda de uma partida sem regresso.
E em Angola, como provavelmente em toda a África, a expressão da dor é mais exteriorizada, manifestam-na sem reservas ou preconceitos.
Essa expressão parece também o evocar das almas dos que já lá estão. E por isso os chamam, a mãe, o pai, o irmão, o sobrinho, todos aqueles que um dia partiram e nunca mais voltaram.
Num dado momento, já no local onde o caixão iria baixar à terra, rezou-se um Pai Nosso, uma Avé Maria e houve cânticos de voz arrastada e triste.
As exéquias continuaram e voltou-se a repetir o Pai Nosso e a Avé Maria.
Os homens encarregues de enterrar o caixão, pegaram nas cordas… e mal terminou esta última oração, ouviram-se gritos, autênticos uivos lancinantes, assustadores… O sentimento genuíno, vivo, de uma dor incontida.
Ficámos petrificados, com todo aquele clima de dor e saudade, de expressão sem medo do ridículo, de um extravasar da intimidade, em que mulheres e homens, o fizeram da mesma forma.
Quando vimos a Ivone, ela vinha amparada pela família, a chamar pela mãe “eu quero a minha mãe aqui, já!”, “quero a minha tia!”… enfim, derramou naquelas lágrimas, todas as vontades que o coração pediu.
Pediu… sem ser atendido.
E com esta morte, aprendi mais uma regra de vida: não vale a pena disfarçar, mascarar a verdade. Fiz muito bem em chorar a minha mãe durante o tempo que precisei… e sempre que tiver vontade de o fazer.
Rita Jasmim
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