La force des choses
30.9.10
16.2.10
Eu tive um sonho...
Sonhei que José Sócrates, num acesso de honestidade, fazendo jus à coragem que lhe reconheço, falou assim ao Secretariado Nacional do PS, nesta quarta-feira:Minhas Senhoras e meus Senhores, pedi esta reunião por duas razões essenciais.
A primeira é para mim um imperativo de integridade pessoal; reconheço sem ambiguidades que de facto faltei à verdade ao garantir desconhecer as negociações entre a PT e a Prisa sobre a Media Capital/TVI. É minha intenção repetir este reconhecimento no Parlamento com o devido pedido de desculpas pessoal.
A segunda considero um imperativo de estado; dada a crítica situação financeira actual do nosso país, pedirei a confiança do Parlamento, garantindo a chefia do governo enquanto se executar o Programa de Estabilidade e Crescimento, com o compromisso solene de entregar a minha demissão ao Presidente da Republica, após a apresentação do PEC à União Europeia
É minha intenção inabalável, suspender a actividade política até acabarem as audições requeridas pelo PSD (ou por qualquer outro partido) à Comissão Parlamentar de Ética sobre a liberdade de expressão, bem como até ao relatório final da Comissão de inquérito sobre a alegada intervenção do Governo na intenção de compra de parte da TVI pela PT, que o Bloco de Esquerda já anunciou propor, e que eu próprio exijo.
Lamento profundamente a situação em que coloquei o partido, mas quero também deixar claro que, nunca urdi nenhum plano para domínio dos media, e que o meu nome foi invocado, mais uma vez, em vão. Acho apenas, que só uma investigação poderá lavar as dúvidas sobre a minha honra, porque são as dúvidas que alimentam o descrédito.
Mas se a minha legitimidade está afectada o mesmo não se passa com o Partido Socialista, cujo projecto político recentemente recolheu apoio maioritário dos eleitores. Peço-vos pois que iniciem o processo de escolha do meu substituto. Estou certo que, dentro ou fora do governo, será encontrada no partido uma pessoa credível e capaz de manter o rumo, cumprir o programa Socialista, e ultrapassar a crise política no interesse superior de Portugal.
Era isto que vos queria comunicar em primeira-mão, que comunicarei no sábado à Comissão Nacional do partido, e que explicarei, com o vosso apoio, a todo o partido nos próximos dias. A finalidade é mantermo-nos unidos, mas igualmente íntegros, eu e o partido.
Foi isto que sonhei… mas por via das dúvidas, esclareço que votei em José Sócrates, não só por aceitar o seu programa, mas também porque pensei que a sua experiencia e qualidades, eram a melhor alternativa para Portugal. Não acreditava no resto... por isso, peço eu próprio desculpa.
13.2.10
O “pequeno problema” da Face Oculta
(...) Pode dizer-se, e certamente com razão, que o exercício do poder politico e económico sempre terá sido assim. Sempre terão existido “manobras de bastidores” e “jogos de sombra”, que ao “pagode” basta dar pão e circo.Mas a Democracia tem este “pequeno” problema: todos somos legitimamente interessados no exercício do poder pelos eleitos. Fomos nós que os colocámos lá. Ou que não conseguimos evitar que lá fossem colocados. Aquilo que eles fazem, salvo naturalmente o que respeita à sua vida privada, diz-nos directamente respeito.
(…)Falamos de conversas que indiciam manipulação de larga escala, recorrendo a meios e a dinheiros públicos, com vista a perpetuar o poder dos políticos que se sentam nas cadeiras do dito cujo.
(…)A questão pode (e deve) pôr-se em termos individuais e não jurídicos: se qualquer um de nós recebesse um CD com gravações de conversas chocantes, não sobre a vida íntima da vizinha, mas sobre comportamentos e actuações duvidosas daqueles que elegemos e nos governam, ou daqueles que, não tendo sido eleitos, ocupam cargos dominantes na sociedade, destruiria o CD ou procuraria divulgar o que se passava nas nossas costas? Mesmo sabendo que corria o risco de ser responsabilizado criminalmente por divulgar aquilo que a lei, abstractamente, proíbe, o que lhe imporia a sua consciência?
É certo que o interesse público não se confunde com um qualquer interesse público, mas não é menos certo que são as leis que servem as sociedades e não as sociedades que servem as leis. Ou quem as faz.
(Francisco Teixeira da Mota no Público 13/02/10)


